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Reforma tributária

Fim dos incentivos fiscais? O ES vai precisar de um choque de renda para vencê-lo

Para que o imposto de destino funcione plenamente, precisamos de mais consumidores e, crucialmente, de trabalhadores qualificados para os empregos de alta complexidade criados
Sávio Bertochi Caçador

Publicado em 

20 dez 2025 às 03:00

Publicado em 20 de Dezembro de 2025 às 06:00

Prezado(a) leitor(a), se o texto anterior nos mostrou o risco de perdermos a “receita emprestada” do ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços), agora precisamos olhar o futuro de frente. A reforma tributária nos deu um ultimato: aceitar a estimativa de perdas de até 10% da nossa arrecadação estadual (vide: Impactos da reforma tributária na economia capixaba – ES Brasil), fruto do redirecionamento do imposto para o consumo, ou, ousar, reinventar nosso plano de desenvolvimento.
O dilema é simples: se a capacidade de arrecadação do novo sistema – o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e o CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) – é o produto do tamanho da nossa população pela renda per capita (que define o potencial de consumo), o Espírito Santo tem que trocar a estratégia de atração de volume de produção pela atração de valor adicionado.
Nossa primeira e mais urgente política pública deve ser um choque de renda per capita. Não basta ter mais gente no nosso território; precisamos de gente ganhando bem para sustentar a arrecadação no destino.
Um caminho proposto aqui é atrair e cultivar indústrias que pagam salários altos: a Indústria e os Serviços de Processos de Negócios (BPO) complexos. O Estado deve se inspirar no Porto Digital de Pernambuco. Exemplos de empresas de grande porte que já estão embarcadas no Porto Digital: Algar Telecom, Accenture, Bradesco, Banco do Brasil, Deloitte, Rede Globo, Qualcomm, Stellantis Fiat, Totvs, Stefanini, dentre outras.
Isso significa orquestrar uma sinergia entre o governo, universidades (e demais instituições de ensino superior e de ensino técnico) e a iniciativa privada, para criar um polo de excelência em Tecnologia da Informação e Comunicação e Economia Criativa.
O investimento em um grande Parque Tecnológico não deve ser feito apenas com incentivos fiscais (que estão morrendo), mas com infraestrutura tecnológica, de inovação e de capital humano. O objetivo é gerar milhares de empregos de alto nível – técnicos, engenheiros, desenvolvedores etc. – que injetarão uma massa de consumo tributável na economia local.
No ES, vale destacar a iniciativa do Ifes com o Parque de Inovação Alvo Serra, o primeiro parque científico e tecnológico do estado a entrar em operação. A iniciativa é resultado de articulação entre o Campus Serra do Ifes, a Prefeitura Municipal da Serra (PMS) e a Associação dos Empresários da Serra (ASES). O Alvo Serra já tem sua primeira empresa parqueada.
Não podemos ser apenas o quintal que fornece matéria-prima. O status de estado “produtor” pode perder relevância na arrecadação do IBS/CBS, mas o valor agregado da produção é o que definirá a renda interna.
A política pública pode mirar o modelo de desenvolvimento econômico de Santa Catarina, que tem investido pesadamente em PD&I (Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação) para transformar a exportação de produtos primários e semielaborados em produtos industrializados complexos e de alto valor.
O Governo do ES pode lançar programas específicos para cofinanciar essa industrialização local. O foco não é mais o volume de exportação, mas o processamento interno. Para isso, os recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional (FNDR), que o ES tem projeção de receber, deveriam ser prioritariamente alocados na infraestrutura logística, tecnológica e de inovação que serve de base para essa nova indústria.
Para que o imposto de destino funcione plenamente, precisamos de mais consumidores e, crucialmente, de trabalhadores qualificados para os empregos de alta complexidade criados.
A proposta de política pública ousada aqui é criar um Programa de Atração de Talentos e Renda no modelo de São José dos Campos (SP) e Santa Catarina.
Imagem Edicase Brasil
Aumento de renda Crédito:
  • Ação: posicionar o ES não só como um hub logístico, mas como um polo de excelência científica e tecnológica, usando nossas universidades como âncoras.
  • Medida: focar em investimentos que aumentem a qualidade de vida elevada e a infraestrutura urbana desenvolvida. Isso tende a atrair e reter “cérebros” de todo o país e do mundo. O crescimento populacional de Santa Catarina de acordo com o último Censo, por exemplo, foi impulsionado pela migração, e não apenas pelo crescimento natural. O consumo dessa população de alta renda beneficiará diretamente a arrecadação municipal e estadual.
A reforma tributária não é o fim da linha, mas o despertar estratégico do desenvolvimento econômico do ES. O caminho está em abandonar a dependência de incentivo fiscal e focar a complexidade e o capital humano, os fatores que serão mais recompensados no modelo de destino. A hora de plantar o futuro é agora, usando os recursos federais para construir uma base econômica mais complexa, mais rica e mais autossustentável.
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