Recentemente, uma conhecida revista de design e arquitetura soltou um post sobre museus que serão inaugurados em 2026, todos eles projetados por arquitetos famosos.
Na lista havia apenas dois museus no Brasil. Um deles é o Museu da Imagem e do Som no Rio de Janeiro, do escritório novaiorquino Diller Scofidio + Renfro. O outro é o também aguardado Cais das Artes em Vitória, neste caso projetado por um arquiteto brasileiro, o notável Paulo Mendes da Rocha.
Paulo Mendes nasceu no Espírito Santo, mas logo mudou-se para São Paulo onde se formou. Lá, com outros arquitetos e sob a liderança conceitual de Vilanova Artigas, desenvolveu um estilo arquitetônico chamado de Brutalismo Paulista.
O termo “paulista” vem da ideia de uma arquitetura oposta àquela praticada no Rio de Janeiro, na qual nomes como Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Reidy, entre outros, estabeleceram uma expressão própria associada à exuberância da natureza carioca, criando projetos abertos à paisagem externa. Em São Paulo, ao contrário, a aspereza da cidade de concreto estimulou outra atitude projetual, da qual Paulo Mendes acabou se tornando “a tua mais completa tradução”.
Os prédios da arquitetura paulista são como caixas fechadas refratárias ao ambiente externo, ao mesmo tempo que criam um micro-espaço interno aberto e fluido onde os usuários desenvolvem suas ações cotidianas.
Ao longo da sua trajetória, Paulo Mendes não fez concessões aos diversos modismos que permeavam a arquitetura, tendo plena consciência dos pressupostos que deveriam guiar seu pensamento arquitetônico. Foi assim que conseguiu manter a autenticidade de sua produção, na qual se destacam diversos projetos, como o Museu Brasileiro de Escultura (MuBE) em São Paulo e o Museu Nacional dos Coches em Lisboa.
Na década de 1990, Paulo Mendes começou a esboçar o projeto de um museu em Vitória dedicado ao artista polonês Frans Krajcberg, que tinha intenção de doar seu acervo ao Espírito Santo. Infelizmente, um desentendimento sobre a condução desse processo fez com que Krajcberg abortasse da sua decisão inicial e aí Paulo Mendes também foi obrigado a cancelar seu projeto.
Mas, por sorte dos capixabas, após esse frustrante episódio, o arquiteto teve uma nova oportunidade para realizar um projeto para sua cidade natal, o Cais das Artes. Trata-se de um centro cultural composto por um museu e um teatro.
A ideia do projeto lhe veio ao constatar a possibilidade de aquela área à margem da Baía de Vitória, em frente ao Convento da Penha, diante da qual navios vão e vêm, ou seja, um lugar com vocação turística, propensa para ser um cartão-postal da cidade, se tornasse local de acesso restrito, fosse para um empreendimento privado ou uma repartição pública.
Assim surge a praça, afinal o edifício do museu encontra-se elevado, criando um espaço aberto e coberto de frente para o mar. É possível ver alguma semelhança com a solução dada pela arquiteta Lina Bo Bardi em seu projeto para o MASP em São Paulo, cujo vão livre é um dos mais significativos locais de encontro da capital paulistana.
Contudo, talvez a principal referência seja o Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, projetado pelo já mencionado Affonso Reidy. Tal como o Cais das Artes, o MAM encontra-se diante do mar – a Baía de Guanabara – e, por isso, Reidy elevou o museu, criando um espaço livre, onde os cariocas costumam se reunir para diversos tipos de eventos. Além disso, ambas construções possuem o museu associado a um teatro.
Paulo Mendes era um humanista, um artista com grande erudição cultural, sendo generoso ao citar outros arquitetos por quem tinha admiração. Ele foi laureado com algumas das principais premiações arquitetônicas mundiais, como o Prêmio Pritzker e o Leão de Ouro da Bienal de Veneza.
O Governo do Espírito Santo anunciou que o museu será inaugurado em março, enquanto o teatro será concluído no final do ano.
Enquanto isso, já houve o evento “Sons do Cais” com participação da cantora Vanessa da Mata e da banda Casaca e outros artistas convidados, para marcar o início do uso daquele espaço pela comunidade capixaba.
A expectativa é enorme, afinal apesar de o Espírito Santo ter destaque em vários indicadores socioeconômicos, ainda faltava algo que simbolizasse culturalmente tal pujança, o que se espera que ocorrerá com a inauguração definitiva do Cais das Artes.