De acordo com dados do Censo 2022, divulgados dias atrás pelo IBGE, quase 70% dos trabalhadores brasileiros levam até meia hora de casa ao local de trabalho. Enquanto isso, cerca de 20% gastam entre 30 minutos e uma hora no trajeto diário para o trabalho. E há inclusive aqueles (10% dos trabalhadores) cujo tempo de viagem varia entre uma e duas horas, além de uma parcela menor (1%, mas que corresponde a 1,3 milhão de pessoas) que perdem até mais de duas horas de deslocamento.
Não é fácil viver gastando tanto tempo cotidianamente apenas para chegar ao trabalho, afinal trata-se de horas que vão embora da vida das pessoas e que poderiam ser desfrutadas de outra maneira. Chega-se cansado para trabalhar e, ao final do dia, esgotado e mal-humorado em casa, com vontade apenas de recuperar as energias para a labuta do dia seguinte.
A pesquisa apresenta dados de todas as partes do país, revelando aquilo que muitos já sabem: em lugares pouco adensados a mobilidade se dá de modo rápido e tranquilo, ao passo de que lentidão e estresse definem a mobilidade de quem vive em lugares com alta concentração de gente, como são as grandes cidades, em especial as regiões metropolitanas.
A maioria da população mundial não apenas é urbana, mas, principalmente, vive em grandes conglomerados metropolitanos, e isso não é diferente no Brasil.
São muitas as razões das pessoas preferirem viver nas grandes cidades, cheias de gente e de problemas. Mas também cheias de oportunidades, de cultura e conhecimento, de atrativos de lazer e ofertas de trabalho, com mais recursos médicos e hospitalares, ao contrário da vida no ambiente rural, bastante calma, dando a sensação que ali o tempo não passa. Contudo, é justamente a intensidade da vida metropolitana que atrai tamanha população e que ocupa seus espaços, tanto para residir como para trabalhar, num círculo vicioso que a faz crescer cada vez mais.
O tempo de viagem gasto nos dias laborais está diretamente relacionado com a distância a ser percorrida entre a casa e o trabalho; quanto mais longe, mais tempo se gasta no deslocamento. Mas é certo que a qualidade do sistema de transporte tem participação fundamental nesta matemática.
Para transportar uma grande quantidade de trabalhadores é preciso um sistema de transporte de massa de alta capacidade (como são os trens e metrôs, por exemplo, que se movem sobre trilhos) e que seja associado a modais complementares de média capacidade (normalmente, os ônibus, sistema sobre pneus e que compartilham espaço, isto é, as vias, com outros veículos, como são os automóveis particulares e de aplicativos, os táxis e as motos).
Não existe solução mágica. Poder trabalhar perto da moradia é um privilégio que a maioria da população não possui, principalmente a faixa de renda com menor poder aquisitivo.
E o que é possível fazer para melhorar?
Quando se fala em mobilidade urbana, é comum esquecer o papel que o zoneamento urbano, atribuição municipal através do plano diretor, tem na distribuição demográfica das cidades. Um bom plano diretor deve levar em consideração as áreas destinadas às moradias e a localização das diversas atividades econômicas do seu território, visando equilibrar uma variedade de aspectos, inclusive o do deslocamento da sua população.
Junto vem a qualidade do sistema viário, isto é, como se organizam as vias da cidade. Avenidas preferenciais para o tráfego pesado e vias locais para o trânsito mais restrito, que garanta capilaridade, um bom escoamento de veículos e segurança tanto para motoristas como para pedestres e ciclistas.
E, claro, uma pavimentação adequada ao fluxo projetado. Em paralelo, uma boa sinalização viária vertical (semáforos, placas indicativas) e horizontal (faixas, setas, etc.). E tudo isso precisa estar sempre com manutenção (preventiva e corretiva) e uma fiscalização atuante.
Voltando à questão do sistema de transporte coletivo, e especificamente falando da Grande Vitória, temos o Transcol, com os ônibus sobre pneus e terminais de transbordo espalhados pela região metropolitana. Criado na década de 1980 e administrado pela Companhia Estadual de Transportes Coletivos de Passageiros do Estado do Espírito Santo (Ceturb), o Transcol vem tentando se atualizar, buscando oferecer um transporte cada vez melhor para seus usuários, apesar do enorme desafio que a realidade propõe.
Em todo o mundo o transporte público coletivo é subsidiado, o que significa que ele não é autossuficiente economicamente. Como são recursos públicos oriundos dos impostos, todos pagamos pelo transporte, mesmo que não façamos uso do Transcol.
Para piorar, por diversas razões, o número de passageiros vem diminuindo ao longo dos anos. Viagens por transporte por aplicativo, facilidade na compra de motocicletas, aumento da frota de bicicletas elétricas, trabalho remoto, e até mesmo questões específicas como é o problema da segurança nos ônibus, são alguns dos itens que estão retirando passageiros, ainda que eles permaneçam lotados em diversas linhas e em muitos horários.
A implantação de faixas exclusivas – diversas vezes prometidas –, a substituição dos ônibus atuais pelas versões elétricas e com piso rebaixado (já estamos vendo alguns rodando pelas ruas), pontualidade, segurança, enfim, tudo que puder ser feito para melhorar o transporte público ajudará nesse jogo de xadrez que é a mobilidade do trabalhador capixaba.