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Democracia

De que é feito o Direito no Brasil?

Ele é feito de sangue, dor, suor e lágrimas. Ao mesmo tempo que a resposta é simples, ela é complexa, requerendo da gente uma coragem de descobrir que, talvez, tenhamos que recomeçar

Publicado em 29 de Janeiro de 2024 às 13:30

Públicado em 

29 jan 2024 às 13:30
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

vcbezerra@gmail.com

Quando ingressamos no curso de Direito, aprende-se muito. Sobre o Direito estudamos a história, a filosofia, a psicologia e a hermenêutica. Sobre as leis estudamos como são feitas e como são aplicadas. Em diante, estudamos o Direito em suas áreas, de acordo com o determinado em algum tempo da história, e a partir de uma determinada necessidade social. Em suma, é isso.
Mas é importante relembrarmos que a concepção e a estrutura do Direito, que temos no Brasil, é herança eurocêntrica que vamos adaptando às variações de um povo multifacetado, muitas vezes sem perceber o abismo de diferença que existe entre a realidade social brasileira e o arcabouço jurídico-normativo vigente no Brasil. E certamente por isso nem sequer compreendemos a pergunta: de que é feito o Direito no Brasil?
Ele é feito de sangue, dor, suor e lágrimas. Ao mesmo tempo que a resposta é simples, ela é complexa, requerendo da gente uma coragem de descobrir que, talvez, tenhamos que recomeçar.
A conquista de direitos ao longo da história é fruto de luta de segmentos sociais, diante da ausência de condições de vida ou de ocorrência de violências sistêmicas.
A compreensão acerca dessa construção é elementar para que, além de valorizarmos e protegermos nosso sistema democrático, pois é o que temos, que sofre ataques constantes, possamos pensar em novas construção de novos direitos, olhando de forma diferenciada para nossa história, com a realidade de vencidos e vencedores, em uma dialética que nos constitui, mas não assumimos na prática.
A cada Direito que surge e positiva-se, reflito: o quanto de sofrimento causou a tantas pessoas.
Na academia aprende-se a máxima de que o Direito nasce da observação da sociedade ou que cada Direito é filho de um tempo. Essas frases escondem a essência dos acontecimentos.
Por exemplo, a Lei 11.340/2006 nasce como uma tentativa de impedir que mulheres sejam assassinadas por seus companheiros. A lei e o Direito tentam resolver o futuro, mas não conseguem alterar o rastro de sofrimento que conduziu a sociedade até o determinado momento em que nasce a norma legal. A lei tenta prevenir o futuro de mais tragédias, mas não se compromete com as mulheres que já se foram, nem mesmo com os órfãos do feminicídio.
Direito, advocacia, advogado, lei
Direito, advocacia, advogado, lei Crédito: Pixabay
Recentemente, foi sancionada a Lei 14.811/2024, que é uma ferramenta importante para combater o bullying e crimes virtuais contra criança e adolescente, abarcando os crimes como indução ao suicídio ou mutilação. Essa nova lei nasce a partir de uma realidade que aflige famílias inteiras, em relação aos jovens, adolescentes e crianças. Quantas e quantos sofreram e sofrem há anos, e muitos e muitas perderam a vida, após um sofrimento absurdo, muitas vezes silenciados.
O sofrimento silenciado não se transforma em pedido de ajuda de forma imediata pela promulgação de uma lei. É preciso que muito se faça para reduzir as ocorrências e para que as famílias saibam lidar com essas questões. É importante a atenção e envolvimento de todos que estejam no entorno da pessoa em sofrimento.
Assim, poderemos, enquanto sociedade avançar no enfrentamento a todo tipo de violação. Assim como o Direito é feito de lágrimas, suor, dor e sangue; a efetivação do Direito é feita de cuidado, atenção, responsabilização e reparação.

Verônica Bezerra

É advogada, doutoranda em Ciências Sociais, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais, especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

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