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Religião

Jesus e os pobres: o verdadeiro significado do Natal

Jesus nasceu na quebrada, foi perseguido desde o seu nascimento. Era filho de uma adolescente, solteira, pobre. Foi adotado por seu pai, após muita dúvida. Levou uma vida simples e ficou ao lado dos mais vulneráveis

Publicado em 18 de Dezembro de 2023 às 13:15

Públicado em 

18 dez 2023 às 13:15
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

vcbezerra@gmail.com

Estamos a uma semana do Natal, a festa em que se celebra o nascimento de Jesus Cristo. Contudo, a história é bem diferente daquela que intuímos, a partir de uma construção eurocentrada.
De acordo com os historiadores, há cerca de sete mil anos antes de Cristo, celebrava-se o Natal a partir dos marcos da natureza, em que o solstício de inverno era considerando como um momento de renascimento e renovação.
O espírito da festa está preservado, mas com realidades diferenciadas. Essa referência é para o norte ocidental, para o sul e para o oriente, as demarcações são outras. Mas embarcamos na lógica dominante e celebramos com base nos marcadores do outro.
O 25 de dezembro se tornou oficial somente no século III, sem nenhuma alusão a Jesus. O imperador romano Lúcio Domício Aureliano, que que havia ascendido hierarquicamente depois de engrossar as fileiras do exército romano, decidiu institucionalizar a festa que já era muito celebrada pelos militares de Roma. Em paralelo, crescia em tamanho e importância aquela nova religião. O cristianismo, tendo seu fundador Jesus Cristo, nascido em Belém, província romana na Judeia, no Oriente Médio, em data inexata.
O menino que nasceu em uma periferia, filho de uma adolescente solteira, que enfrentou um sistema opressor e trouxe uma mensagem de amor incondicional pela humanidade, fez com que uma festa da natureza fosse reapropriada pelos cristãos, dando um novo significado a ela pelo nascimento do Filho de Deus, mas guardando o núcleo genealógico da festa: renovação.
No século IV, grande concílio da Igreja Católica definiu dogmas e datas importantes, sendo uma delas a fixação do que a gente chama de Natal. Essa oficialização aconteceu em 350 a.C, com a publicação de um decreto substituindo a veneração ao Deus Sol pela data do nascimento de Jesus.
O cristianismo passou a dialogar e interagir com outras culturas e outras religiões, fazendo perpetuar uma data que também já era celebrada por outros povos, da antiguidade oriental aos gregos e romanos, numa construção que levou tempo.
Baseado na premissa de que o coração do ser humano sempre anseia por Deus, mesmo que não o conheça ou mesmo o renegue, o cristianismo apresenta a vinda de Cristo, como algo já intuído e até comemorado antes mesmo de seu nascimento. O renascer do sol na manhã ou a volta dos dias mais longos do ano após o solstício de inverno seriam sinais a animar a esperança dos seres humanos de que um Deus viria a iluminar suas vidas, assim como o sol sempre volta depois da noite.
A festa que foi apropriada como uma tradição até mesmo desvinculada de crenças, ao nascimento daquele, cerca de dois mil anos atrás, chamado Jesus, traz arraigada a si toda a construção religiosa que seria erguida a partir dele.
Sendo assim, não podemos apagar que o nascimento daquele que, de tão importante, dividiu o calendário da humanidade, aconteceu com sinais singelos e profundos, que ainda hoje não é de fácil compreensão e continua sendo distorcido. Incluindo o mercado que aproveita a data para lucrar, afastando-se do propósito fundante desse momento tão profundo.
Jesus nasceu na quebrada, foi perseguido desde o seu nascimento. Era filho de uma adolescente, solteira, pobre. Foi adotado por seu pai, após muita dúvida. Levou uma vida simples e ficou ao lado dos mais vulneráveis. Esse homem, de tamanha importância, não esteve em palácios ou andava com os poderosos. Jesus se cercava dos mais fracos.
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Árvore de Natal Crédito: Freepik
Certamente hoje, ele poderia ser encontrado ao lado das pessoas em situação de rua. Sem presentes e passando fome.
Quando no próximo dia 25 estivermos celebrando, com os nossos, lembremos o que representa essa noite, verdadeiramente. E lembremos a partir do nosso lugar, o sul do mundo, a periferia do planeta.
Ah! E quanto ao Papai Noel, esse é funcionário de uma grande marca de refrigerante. Então, deixe-o no frio norte de sua geladeira, e olhe para as pessoas mais vulneráveis e as aqueça com afeto a sua pouca vida, pois ali sim, temos o Cristo.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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