O samba, símbolo maior da cultura popular brasileira, nunca foi o problema central. O verdadeiro obstáculo sempre esteve em quem controla, vigia e limita sua expressão. O carnaval, hoje celebrado como a maior festa popular do país, tem origens muito mais profundas e resistentes do que as arquibancadas e camarotes deixam transparecer.
Antes das grandes avenidas e dos desfiles televisionados, o samba florescia nos quintais, longe dos olhares repressores das autoridades. Houve uma época em que sambar era considerado crime, e as icônicas tias baianas abriam suas casas para abrigar sambistas perseguidos pela polícia.
O que hoje é visto como tradição e alegria, antes foi ato de coragem e resistência. É por essa história que a presença da ala das baianas é obrigatória nas escolas de samba, consistindo em uma reverência àqueles que mantiveram o samba vivo, mesmo sob ameaça constante.
O carnaval nunca foi neutro. Apesar de vendido como um espetáculo de alegria, diversidade e igualdade, sua origem está enraizada nas culturas negras, marginalizadas e criminalizadas. Os batuques eram proibidos, os corpos negros eram vigiados, as religiões de matriz africana perseguidas, e as ruas sempre foram palco da repressão estatal. A celebração nasce, portanto, do enfrentamento e da persistência.
A intelectual Lélia Gonzalez já denunciava o mito da democracia racial brasileira, que permite a apropriação e celebração da cultura negra enquanto mantém a população negra em empregos precarizados e sob constante vigilância policial. Durante o carnaval, os corpos negros são transformados em estética, ritmo e fantasia; mas, passada a festa, voltam a ser alvo de suspeita, revistas e até eliminação. Não se trata de contradição, mas de uma estrutura social racista profundamente enraizada, criada para ser exatamente assim.
Os camarotes, cada vez mais elitizados e caros, tornam-se espaços predominantemente brancos, enquanto marcas lucram com a estética afro e trabalhadores negros seguem nos bastidores: segurando cordas, limpando ruas, montando trios elétricos. Essa dinâmica confirma a análise de Achille Mbembe sobre a economia política do corpo sobre quem pode circular, lucrar e viver, e quem é relegado ao uso e ao descarte.
No Brasil, o carnaval é um mercado racializado e altamente lucrativo. A festa não suspende o racismo; pelo contrário, revela e reforça suas estruturas. É preciso reconhecer que, para além do brilho e da música, o carnaval é também espaço de luta e resistência negra.
Brinque, mas saiba que as cinzas do racismo sempre estarão lá, na quarta-feira.