O assassinato de defensores de direitos humanos no Brasil é causa de preocupação mundial, considerando o número de defensores que foram mortos nos anos de 2023, 2024 e 2025. No entanto, existem outras formas de silenciar um defensor de direitos humanos que denuncia injustiças e abusos. Esses métodos visam dificultar ou inviabilizar o trabalho dessas pessoas, expondo-as a riscos e constrangimentos.
Uma das principais estratégias consiste em ameaçar e intimidar o defensor. As tentativas de constrangimento, medo ou pressão podem ocorrer de diversas formas, incluindo abordagens presenciais, ligações telefônicas ou ataques por meio das redes sociais, com objetivo de criar um ambiente hostil e inseguro, desencorajando a atuação do defensor.
A recente proibição implementada pelo Arcebispo de São Paulo ao padre Júlio Lancellotti tem gerado discussões relevantes tanto no meio religioso quanto na sociedade civil e é caracterizada como uma ação de silenciamento. A medida, ao restringir determinadas atividades pastorais do sacerdote, suscita questionamentos acerca dos limites da atuação social dos membros do clero e sobre o papel institucional da Igreja perante as demandas sociais modernas.
O padre Júlio Lancellotti é amplamente reconhecido por sua atuação com populações vulneráveis, especialmente pessoas em situação de rua. Seu trabalho é considerado referência no cuidado aos grupos marginalizados, evidenciando a presença ativa da Igreja junto a esses segmentos. Nesse contexto, a decisão do arcebispo fomenta discussões sobre autonomia pastoral, autoridade eclesiástica e a importância do diálogo entre diferentes setores da instituição religiosa.
A análise do caso revela que tensões internas podem refletir desafios institucionais mais amplos diante das transformações sociais. O episódio ressalta a complexidade na relação entre liderança eclesiástica e práticas pastorais, apontando para a necessidade de reavaliar o papel da Igreja na sociedade contemporânea e de repensar as formas de articulação entre hierarquia e serviço social.
Sistemas institucionais podem adotar mecanismos sutis destinados a restringir a atuação de defensores de direitos humanos, muitas vezes apresentando decisões administrativas como medidas protetivas, mas que podem resultar em censura e isolamento. Um exemplo dessa dinâmica é a decisão de limitar a participação de Júlio Lancellotti em redes sociais e transmissões de missas. Embora apresentada como ação preventiva, tal restrição compromete significativamente sua atuação pública, dificultando a defesa dos direitos dos grupos vulneráveis que representa.
Esse tipo de medida pode ser compreendido como uma estratégia de neutralização, afastando o defensor do debate público e dos meios de mobilização social. Ao restringir o acesso aos canais de comunicação, reduz-se a influência e a capacidade de denúncia do defensor de direitos humanos. Dessa forma, mesmo sem recorrer a ações extremas, o sistema limita a atuação daqueles que promovem justiça social, tornando o ambiente menos propício à defesa dos direitos humanos.
Outra prática frequente é a criminalização dos defensores de direitos humanos. Nesse caso, recorre-se ao sistema judicial para processar ou acusar injustamente quem denuncia, numa tentativa de descredibilizar a sua atuação ou impedir que continue a exercer o seu papel. Essa instrumentalização da justiça visa transformar o defensor em réu, desviando o foco das denúncias apresentadas. Há ainda a disseminação de informações falsas ou distorcidas sobre o defensor. Campanhas de difamação e desinformação procuram manchar a sua reputação, fragilizando a sua credibilidade perante a sociedade e isolando-o do apoio de que necessita para continuar o seu trabalho.
A ação da Igreja no caso do padre Júlio deve conduzir a sociedade basileira a refletir os reais motivos da estratégia de silenciamento e a quem serve, considerando o serviço de conscientização política, à luz do Evangelho, que padre Júlio sempre desempenhou.
Quando se silencia um defensor de direitos humanos, a sua luta se fortalece e outros assumem o seu legado. Há uma música do cancioneiro popular cristão que diz que “se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão; se fecharem os poucos caminhos, mil trilhas nascerão; muito tempo não dura a verdade, nestas margens estreitas demais”.