Sair
Assine
Entrar

Comportamento

Quando a mulher não paga para entrar, ela é o produto

São recorrentes os casos em que mulheres são abusadas sexualmente em ambientes de entretenimento, como se sua presença entorpecida pelo álcool nesses locais fosse o passaporte para ser vilipendiada de todas as formas

Publicado em 27 de Fevereiro de 2023 às 00:20

Públicado em 

27 fev 2023 às 00:20
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

vcbezerra@gmail.com

Em muitas casas de shows, boates, bares, entre outros locais de entretenimento, é comum mulheres terem franqueada a entrada de forma total ou parcial, e em alguns casos a bebida é gratuita por um período inicial da noite. Essas medidas são tidas como estratégias de marketing, com vistas a atrair os homens, considerando que se tiver mulheres em um ambiente de diversão, os homens são clientes certos. Infelizmente, esse pensamento raso é o predominante em nossa sociedade, pelo menos entre alguns que organizam os eventos.
A estratégia classificada como comercial vai além da propaganda e revela a sociedade machista, misógina e patriarcal que temos, pois, se a mulher não paga para entrar, ela se torna o produto.
São recorrentes os casos em que mulheres são abusadas sexualmente em ambientes de entretenimento, como se sua presença entorpecida pelo álcool nesses locais fosse o passaporte autorizativo para ser vilipendiada de todas as formas. Alguns casos mais famosos alcançam as páginas dos jornais, e por uma pressão acabam sendo apurados, mas a tendência não é a responsabilização. Esses casos não são tão raros, ocorrendo diariamente em todos os cantos, e a vítima é transformada em culpada.
A objetificação da mulher na sociedade mundial é uma prática que ainda está normalizada, a ponto de que, quando uma mulher tenta romper essa barreira, é criticada por homens que não querer perder o poder que pensam ter sobre os seus corpos, e ainda por algumas mulheres que, equivocadamente, enxergam nessas atitudes (entradas franqueadas, pagar meia e ganhar bebida) uma deferência ou uma gentileza, não percebendo que nesse momento são coisificadas.
Urge abdicar do posto de princesa que precisa ser bancada por um macho, e assumir o papel de protagonista de sua vida e vontade, pagando seus boletos, entradas e bebidas.
A luta pela igualdade de direitos de gênero tem a ver com os detalhes do cotidiano. O machismo está na estrutura social, e vez ou outra tentamos encobri-lo para não causar mal-estar, seja no trabalho, seja em família.
Homens e mulheres ainda não ocupam espaço de poder e decisão da mesma forma. Quando uma mulher ascende, vira destaque, pois não é comum. Mulheres ainda colocam suas vidas públicas em segundo plano, para criar os filhos para que os pais desses possam conquistar o mundo, sem se preocupar com a reunião de escola, com o uniforme limpo, com a comida no horário e com a febre no meio da noite. Afinal, quem mantém a casa tem direito ao descanso.
É assim. E somente vamos mudar isso quando essa lógica for revertida, ou seja, quando homens e mulheres ocuparem os mesmos lugares, na vida pública e privada. Quando ambos pagarem de forma igualitária as despesas de uma balada. O resto é cortesia para o estupro.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Pública

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Corpus Christi em Castelo
Fé e tradição colorem as ruas de Castelo na celebração de Corpus Christi
Imagem de destaque
Ainda não está claro se intervenções de Trump vão ajudar ou atrapalhar Flávio Bolsonaro, diz New York Times
Imagem de destaque
CBN Vitória ao vivo: regra que amplia fiscalização sobre saúde mental no trabalho em vigor

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados