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Crime em MG

Vidas descartadas: o assassinato do gari Laudemir em Belo Horizonte

Morte não pode ser esquecida ou reduzida a um caso policial. É preciso ampliar o debate sobre o valor da vida humana, especialmente daqueles que mantêm as cidades funcionando e que, paradoxalmente, vivem à margem do reconhecimento
Verônica Bezerra

Publicado em 

18 ago 2025 às 02:30

Publicado em 18 de Agosto de 2025 às 05:30

A morte do gari Laudemir em Belo Horizonte, na semana passada, vítima do ato violento e descompensado de um empresário, não é apenas um caso policial, mas é um espelho trágico da sociedade brasileira e das profundas feridas da desigualdade que atravessam o tecido social do país.
O episódio traz à tona discussões urgentes sobre o valor da vida humana, o peso da desigualdade social, a invisibilidade dos trabalhadores essenciais e a naturalização do descarte de vidas consideradas "menos importantes" por determinados setores da sociedade.
Por trás do nome Laudemir, havia uma pessoa que, como milhares de garis espalhados pelo Brasil, dedicava seus dias à limpeza das ruas, ao zelo pelo espaço público e à manutenção de uma cidade minimamente habitável para todos.
O gari é aquele trabalhador que, muitas vezes, começa o turno antes do sol nascer, enfrenta intempéries, lida com o lixo de toda uma sociedade e raramente recebe reconhecimento ou respeito. Laudemir era mais um desses indivíduos, invisibilizados, que desempenham um papel fundamental na vida urbana, mas que acabam sendo marginalizados tanto pelo poder público quanto pela população.
Laudemir foi brutalmente assassinado por um empresário após uma discussão banal. O motivo, embora aparentemente pequeno, revela uma estrutura mental e social em que a vida do trabalhador é desvalorizada diante do poder e do dinheiro. O ato de violência extrema, cometido por alguém que ocupa uma posição de prestígio econômico, escancara a ideia de que, para certos grupos, vidas podem ser descartadas diante de interesses, ressentimentos ou mesmo demonstrações de força.
No Brasil, a desigualdade é uma marca histórica e estrutural. O abismo entre classes sociais cria fronteiras invisíveis, mas profundas, que determinam quem pode ser ouvido, respeitado e protegido. O episódio envolvendo Laudemir é emblemático porque mostra como essas fronteiras podem se materializar em violência física. Não se trata apenas de uma relação entre indivíduo e indivíduo, mas entre classe e classe, entre o privilégio e a marginalização.
Laudemir de Souza Fernandes, de 44 anos, gari morto por empresário em Belo Horizonte
Laudemir, gari morto por empresário em Belo Horizonte Crédito: Redes sociais
A expressão “descarte da vida humana” ganha sentido trágico neste contexto. Em uma sociedade marcada pelo consumismo, pela lógica do lucro e pelo individualismo extremo, a vida humana é tratada como um recurso descartável, especialmente quando se trata de trabalhadores considerados “subalternos”. O gari, assim como tantos outros profissionais invisíveis, é visto apenas pelo serviço que presta, e não pela pessoa que é.
A naturalização da violência contra trabalhadores vulneráveis é resultado de uma construção histórica e cultural que legitima a dominação dos mais fortes sobre os mais fracos. A morte de Laudemir, por mais chocante que seja, não é um ato isolado; está inserida em uma cadeia de violências cotidianas, sejam elas físicas, simbólicas ou institucionais, que se perpetuam nas relações sociais brasileiras.
É preciso que o caso de Laudemir não seja apenas mais um número nas estatísticas de homicídios, mas um ponto de virada para transformações sociais e institucionais. A responsabilização do empresário pelo crime é apenas o primeiro passo. A verdadeira justiça consiste na mudança do olhar social sobre os garis e outros trabalhadores invisíveis, na implementação de políticas públicas que garantam segurança, respeito e valorização, e na construção de uma cultura que reconheça o valor intrínseco de cada vida humana.
O Estado, como agente regulador e promotor de direitos, tem a obrigação de proteger os trabalhadores essenciais. Investir em condições de trabalho dignas, salários justos, saúde, segurança e reconhecimento público são medidas básicas, mas frequentemente negligenciadas. Campanhas de valorização, integração social e educação cidadã podem contribuir para combater a invisibilidade e o descarte de vidas.
Além das políticas públicas, é imperativo que a sociedade civil se mobilize. Movimentos sociais, organizações não governamentais, coletivos urbanos e cidadãos comuns precisam se engajar na defesa dos direitos desses trabalhadores. A memória de Laudemir deve ser preservada não apenas como símbolo de uma tragédia, mas como ponto de partida para ações concretas que garantam dignidade e justiça para todos.
A morte de Laudemir não pode ser esquecida ou reduzida a um caso policial. É preciso ampliar o debate sobre o valor da vida humana, especialmente daqueles que mantêm as cidades funcionando e que, paradoxalmente, vivem à margem do reconhecimento. O descarte da vida do gari é, na verdade, o descarte de parte de nós mesmos enquanto sociedade. Cada vez que ignoramos um trabalhador, que nos calamos diante da violência, que permitimos que o privilégio se sobreponha ao direito à vida, estamos colaborando para a perpetuação dessa lógica perversa.
A história de Laudemir, como tantas outras, exige luto e indignação, mas também ação e consciência. Que sua memória inspire a construção de uma sociedade em que nenhuma vida seja considerada descartável e em que o respeito, a justiça e a solidariedade sejam valores centrais. É preciso transformar dor em luta, indignação em solidariedade, e a invisibilidade em reconhecimento.
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