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Vitor Vogas

A praça do Moscoso já não é mais da sociedade

A pracinha situada no alto da comunidade, na divisa do Morro do Moscoso com o da Piedade, virou cenário de violência e terror

Publicado em 17 de Janeiro de 2019 às 08:49

Públicado em 

17 jan 2019 às 08:49
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

Dentro da Basílica de São Pedro, no Vaticano, situada na praça de mesmo nome, o visitante pode apreciar uma das esculturas mais famosas da Virgem Maria: a Pietà de Michelangelo (do italiano “Piedade”), que retrata a mãe de Jesus amparando o corpo do filho executado, após a crucificação. A 15 horas de voo dali, em Vitória, encontra-se outra Piedade. Nela existe outra praça, bem menos importante e suntuosa, conhecida como Poeirão. Na última segunda, outras mães e outros pais encontraram ali os corpos dos filhos igualmente executados.
Uma praça pública é tradicionalmente sinônimo de tranquilidade, lazer, descanso, descontração, confraternização entre moradores... Também costuma ser o palco ideal para atos públicos de movimentos sociais e políticos. O título histórico desta coluna (e o leitor mais recente talvez se pegue perguntando o porquê do nominho do logradouro ladeando o do colunista) é Praça Oito, local de comícios históricos, como o das Diretas Já, em 1982. Remete à ideia de liberdade para manifestações civis em espaços públicos.
Agora, a pracinha situada no alto da comunidade, na divisa do Morro do Moscoso com o da Piedade, virou cenário de violência e terror. Ninguém está seguro nem na pracinha do bairro. Foi-se embora a serenidade. Foi-se também a liberdade, não só a política, mas também a liberdade civil mais elementar de todas: aquela ligada ao direito de ir e vir. Sem paz nem liberdade, vão-se embora também, desde o ano passado, os moradores que se veem reféns do crime na própria comunidade onde construíram a vida. Deixam para trás os lares, tornando-se refugiados dentro da mesma cidade.
Em espanhol, existe a palavra “desplazados” (por exemplo, na Colômbia, é assim que se denomina quem perdeu sua residência por conta da ação das Farc). A tradução literal seria deslocados, mas a melhor tradução é desterrados ou desterritorializados; refugiados. A raiz da palavra é “plaza”, que pode significar um posto, um cargo, uma vaga, mas, de modo mais específico, significa “praça”.
Aplica-se à nossa situação, pois esses moradores estão sendo arrancados de suas casas e até, literalmente, de suas praças públicas. Por ação do tráfico de drogas e ausência de respostas do poder público até agora, esses cidadãos inocentes estão sendo desterrados, expulsos do próprio território e agora impedidos até de circular na pracinha do bairro. Pracinha que, antigamente, era um cenário bucólico e sinônimo de paz.
Na última terça, as três vítimas e os dois feridos (todos com menos de 30 anos) estavam no Poeirão às 20h, quando foram surpreendidos por 12 criminosos fortemente armados, que abriram fogo, sem alvo fixo, em quem estava no local. A área onde a chacina ocorreu vive em constante alerta por causa dos conflitos entre traficantes criados na própria comunidade e de outros bairros da região.
Desde março de 2018, por vingança, ódio e disputa pelo comando das bocas, foram cometidos pelo menos sete brutais assassinatos na Piedade, e o massacre parece não ter fim. Daí em diante, tomados pelo medo, os moradores começaram a se mudar da Piedade, do Moscoso e dos morros vizinhos. “Tiraram a vida do menino como se fosse um bicho”, desabafou a sogra de uma das vítimas da chacina do Poeirão. “Mais uma vez, além da perda dolorosa de um filho, amigo ou ente querido, novas famílias já anunciaram que sairão do morro”, informou, em nota, o Instituto Raízes.
Enquanto isso, da “plaza” para o placebo, o governo federal vende uma solução simplista e ilusória para o complexo problema da violência no país.
PSDB no governo
Confirmado nesta quarta como novo secretário estadual de Esportes, Júnior Abreu foi indicado diretamente por Sérgio Vidigal (PDT), mas em 2015 trocou o PDT pelo PSDB. E lá continua.
Vão contando
Abreu é o 8º secretário estadual de Esportes nos últimos 48 meses. Em média, dá um semestre para cada um. E isso sem contar Marcelo Santos (PDT)...
Mais um lucianista
Ex-prefeito de Santa Leopoldina, Fernando Rocha (PPS) foi nomeado para o cargo de subsecretário estadual de Gestão, Desenvolvimento de Pessoas e Relações Sindicais. Rocha é mais um aliado de Luciano Rezende (PPS) que vai para o governo Casagrande. Na Prefeitura de Vitória, ele foi subsecretário de Relações Institucionais, secretário de Serviços e secretário de Administração.
Audifax vs. Casagrande
Ao contrário de Luciano, quem está com relação política deteriorada com Casagrande é o prefeito da Serra, Audifax Barcelos (Rede). Mais uma prova disso foi a matéria publicada nesta quarta no site da prefeitura, acusando o governo do Estado de ter interrompido a parceria para mutirão de cirurgias vasculares e ginecológicas para pacientes da Serra.
Para esclarecimento
A diretoria da Associação de Subtenentes e Sargentos da PMES fez circular uma nota de repúdio por causa da ilustração da coluna de terça-feira, que mostrou um policial fardado quebrando as algemas. Entenderam que o policial é retratado com cara de animal. Como toda manifestação artística, o desenho, do cartunista Arabson, está sujeito à livre interpretação. Mas não há a alegada associação com uma figura animalesca nem foi essa a intenção da ilustração.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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