Ao longo daquela sexta-feira, cresceu a especulação de que, mesmo que indiretamente, a ação da bandidagem e a reação eficaz da polícia poderiam fortalecer a pauta reivindicatória da Frente, já que emprestam ao movimento um argumento forte: na medida em que a polícia mostra seu valor perante a sociedade num momento de caos (“quando o cidadão de bem precisa, é a nós que ele recorre”), a Frente pode se sentir ainda mais legitimada para bater à porta da cúpula do governo, “exigindo” maior valorização também do ponto de vista salarial. E o próprio Casagrande, ao dar tanta moral para a polícia naquele dia tão delicado, que encerrou uma semana tão delicada, não teria fortalecido esse argumento?
“Pode ser. Pode até fortalecer, sim”, reconheceu, para mim, uma alta fonte palaciana. Mas a cúpula do Palácio entendeu que esse era um risco menor. O governo Casagrande avalia, hoje, que há setores pontuais e personagens políticos, ligados de algum modo à polícia, apostando no “quanto pior, melhor”. E, por isso, o governo entende que precisa mesmo valorizar a ação policial correta e responsável que visa garantir a ordem pública, sem prejuízo da pauta de reivindicações e da mesa de negociações já instaurada - isto é, sabendo separar o que é cobrança salarial do que é cumprimento do dever funcional.
“Precisamos fazer um contraponto ao caos”, me disse a mesma fonte.
Atores do governo Casagrande estão muito incomodados com o discurso do presidente Bolsonaro de empoderamento das forças policiais, que legitima qualquer tipo de ação e pressão dos representantes da categoria. O discurso de Bolsonaro, em suas três décadas no baixo clero da Câmara, sempre foi o de mais dinheiro e benefícios para as forças armadas e militares e, ao mesmo tempo, menos limites. Esse discurso agora foi transposto para a Presidência da República. “Eles [os policiais] estão se sentindo mais empoderados que nunca”, confidenciou-me um “anchietano”.
Isso tem tirado o sono dos governadores em geral. Todos, neste momento, independentemente de matiz político, enfrentam muita dificuldade em lidar com as respectivas polícias militares, das quais, é bom lembrar, são os comandantes em chefe. Não se descarta que possa estar em curso uma ação coordenada do governo central de modo a enfraquecer governadores, sobretudo aqueles de partidos de esquerda, escolhidos e tratados como inimigos pelo presidente da República.
Para seus apoiadores, cobrou que todos se exponham, tenham posição clara e defendam o seu governo dos ataques. “Quem for omisso será castigado.”