O presidente Jair Bolsonaro, como destacamos aqui ontem, consolidou-se como inimigo nº 1, no Brasil, da ideia de diversidade e de todas as suas formas de expressão. Enquanto Bolsonaro luta contra a diversidade, seu governo enfrenta adversidades. A maioria delas criada ou insuflada pelo próprio presidente, por sua prole, por alguns de seus ministros e por um certo guru do bolsonarismo.
Rasputin do governo Bolsonaro, o “filósofo” sem diploma Olavo de Carvalho é quem de fato comanda, da Virgínia, o Ministério da Educação (não vamos nem tocar no das Relações Exteriores). Põe e tira de lá quem quer e influencia substancialmente as políticas do governo para a área, se é que se pode falar em políticas para a área.
Sem ter sido até agora desautorizado de verdade pelo presidente, o guru da extrema-direita brasileira segue produzindo, em série, disparates intelectuais, xingamentos, ofensas e ataques gratuitos, mirando inclusive em peças importantes do próprio governo, como o vice-presidente Hamilton Mourão e a instituição Forças Armadas. Vale dizer: segue produzindo intrigas, discórdia, desintegração, enfim, problemas internos para o governo do candidato paradoxalmente apoiado por ele.
Antes de chegada de Bolsonaro ao Planalto, as bobagens proferidas por Olavo de sua trincheira digital eram apenas bobagens; uma galeria de irrelevâncias, a não ser para um nicho restrito de seguidores dele, ou “discípulos”. Com a chegada de Bolsonaro ao poder (e, com ele, todo o clã Bolsonaro, ao menos assim creem os filhos), as ideias do autointitulado filósofo, levadas muito a sério sobretudo por Carlos e Eduardo, também subiram a rampa do Planalto. E, incrivelmente, ganharam relevância nacional, a ponto de influenciar decisões de Estado.
Embora tenha tentado refutar o vínculo quando nomeado, o ministro (de direito) da Educação, Abraham Weintraub, é ainda mais olavista que seu predecessor no cargo, Vélez Rodríguez. E é pela filiação às ideias do guru que ele agora, assim como Bolsonaro, incita abertamente alunos do país inteiro à prática fascistoide, típica de regimes autoritários, de filmar professores em sala de aula a fim de intimidá-los. Está aberta a caça às bruxas incitada pelo Bruxo da Virgínia. Por causa de Olavo de Carvalho, a coerção de mestres passará a ser tratada e incentivada como política de Estado? Como isso contribui para a melhoria da educação brasileira? Qual o passo seguinte? Mandá-los para um paredão?
No mesmo compasso, professando uma visão limitada e endossada pelo presidente sobre as Ciências Humanas, o MEC acaba de anunciar corte de investimentos em cursos inseridos nesse campo. Cursos como os de Sociologia e de Filosofia são tratados agora, oficialmente, como desperdício de dinheiro público pois “não dão retorno imediato à sociedade”. O fechamento sumário de faculdades de Humanas compõe o rol de “teses” já defendidas por Olavo de Carvalho.
Alguém precisa lembrar a Bolsonaro que: 1) O próprio Olavo se intitula “filósofo”; 2) Seu superministro nº 1, Paulo Guedes, vem da área de Humanas, assim como o nº 2, Sergio Moro. Ou Economia e Direito de repente passaram a ser Ciências Exatas e Biomédicas?
Outro que não ajuda...
Enquanto isso, o filho 02 de Bolsonaro, outro fervoroso adepto do olavismo, é um vereador do Rio que insiste em se comportar como ministro da Propaganda do governo do pai e segue agindo como o artífice do caos interno. Primeiro Olavo criticou militares em vídeo publicado e depois tirado do canal de Bolsonaro no YouTube (controlado por Carlos) no dia 21. Em nota lida pelo porta-voz do governo, Bolsonaro admitiu que as críticas de Olavo não contribuem com o governo, mas enalteceu sua contribuição no debate ideológico em contraponto à “mensagem anacrônica cultuada pela esquerda”. Era para desautorizar Olavo ou exaltá-lo?
Se Bolsonaro diz que Olavo não contribui com seu governo e se esse é apoiado e formado por um expressivo núcleo militar, por que raios o próprio presidente (ou seu filho Carlos) republica as críticas do “filósofo” aos militares em seu próprio canal no YouTube? Em rara réplica, Mourão criticou Olavo, dizendo que ele deve limitar-se a praticar a astrologia. Daí em diante, Carlos se rebelou e entrou em um surto de críticas no Twitter a Mourão.
No tocante à disciplina
Em vez de colocar o filho no devido lugar, o presidente segue a tratá-lo como um adolescente de 36 anos que “tem um ânimo um pouco exaltado”. No que isso ajuda um governo que já peca pelo desarranjo interno, é mistério que nem um astrólogo pode desvendar. Certo mesmo é que o presidente se elegeu pregando a ordem, a disciplina e o respeito à hierarquia. Claro está, a esta altura, que não consegue garantir essas três coisas nem dentro da própria família.
E assim, dando trela demais a quem não deve, vai criando adversidades para si mesmo e para sua administração.