Anjo negro chega tocando gaita ao céu dos eleitores do ES
Obituário
Anjo negro chega tocando gaita ao céu dos eleitores do ES
Homenagem poética da coluna a Dona Leopa, a eleitora mais velha do Estado, que se foi nesta sexta-feira (9), deixando-nos um exemplo de vida e de consciência política
Sua história de vida se confunde com a do Brasil República. Era um exemplo de simplicidade, bom-humor, lucidez e consciência política. Até o fim, fez questão de ir às urnas, a cada dois anos. Assim, a cada par de anos, entrevistar a senhora negra, filha de escravos, era uma espécie de agradável tradição da Editoria de Política.
Em duas dessas oportunidades, nas eleições de 2008 e 2014, fui o repórter responsável por entrevistá-la. Na última ocasião, em um asilo em Cariacica, promovemos um encontro único, entre ela e o adolescente Calebe. O rapaz (também negro) completaria 16 anos no dia da votação, o que o tornava o eleitor mais jovem do Espírito Santo naquele pleito. Desse encontro nasceu poesia (gênero amado por ela). E é a história desse abraço, a última vez que vi dona Leopa, que recontamos abaixo, em versos:
Poema para Dona Leopa - parte 1
Ele em breve apagará as velinhas Já a luz da velhinha não se apaga A alegria de antes se alarga E distante vê-se o fim da linha.
O primeiro chama-se Calebe, Um rapaz esperto, inteligente Tem a vida inteira pela frente E um projeto ousado já concebe:
Hoje cursa só o primeiro ano Mas a voos altos se destina Resoluto afirma, sem engano: “Vou me graduar em Medicina”.
A outra já não é bem uma menina Mas mantém a juventude a toda prova Se o corpo é velho, a alma é nova Com vocês a Dona Leopoldina.
Cujo nascimento, sem berçário, No início do século vinte, Prometia uma vida sem requintes Em seus mais de cem aniversários.
De oito irmãos era a segunda filha Aliás, filha de um escravo liberto Seus pais sem um centavo, assim decerto Foi trabalhar em “casa de família”
Estudos, só até a terceira série Contudo, espanta por sua cultura E encanta a todos com a figura Que os 109 anos lhe conferem.
Nascida na Região Serrana Aos 21 foi para Cachoeiro Até que veio o pouso derradeiro: Tornou-se outra metropolitana.
Duas figuras tão diferentes Com idade e história tão diversa Em duas extremidades inversas Dois extremos, aparentemente.
Como, afinal, aproximá-las? Qual pode ser a afinidade? O que pode haver que os iguala Apesar dessa disparidade?
É que ambos, em pé de igualdade, Vão exercer em breve o direito De manifestarem sua vontade Com seus votos no próximo pleito
Ajudando a erguer o edifício Da nossa jovem democracia Nesse tão importante exercício De política e cidadania
Na foto, posando lado a lado, São eles, respectivamente, O mais novo e a mais “experiente” Eleitora deste nosso Estado.
Data: 11/09/2014 - ES - Cariacica - Calebe, 16 anos, vai votar pela primeira vez, Leopoldina, 109 anos, conhecida como Dona Leopa, não abre mão de sempre exercer o seu direito de votarCrédito: Fernando Madeira
Poema para Dona Leopa - parte 2
Calebe é o debutante: No dia em que completa 16 Vai votar pela primeira vez E sempre voltar daqui em diante.
Fez questão de tirar o seu título Não só para entrar na estatística Mas para participar mais da política Envolvimento do qual é, pois, um símbolo
Afinal, apesar da mocidade E da sua pouca experiência, Calebe prova que a consciência Não tem nada a ver com a idade.
“Não quero mais ter desculpa E ser sujeito oculto Não quero mais pôr a culpa Nas decisões dos adultos.”
Já a nossa Dona Leopoldina Só veio a votar muito depois Pois a participação feminina Só seria aprovada em 32.
Porém, o seu primeiro “xis” Ela só daria em 50 E, a partir daí, atenta, Deixar de votar nunca mais quis.
E logo a gente descobre Que era uma fã do “Pai dos Pobres” E sempre votava, com orgulho, No PTB de Getúlio.
Dos tempos de ditadura Se recorda, porém, com amargura: “Longe vá”, diz a longeva, “Aquela período de trevas”.
Dona Leopa é dona De invejável memória Carrega e conta a história Do Brasil na sua poltrona.
A matrona é mesmo peça única E se mostra grande patriota Tira de sua gaitinha as notas De todos os hinos da República.
Chega a recitar Castro Alves O poeta da abolição Declama ela: “Deus nos salve E salve nossa nação”
Calebe respeita e venera A senhora de tantos pleitos Se inspira nela e espera Poder chegar lá do mesmo jeito.
Ao votar pela primeira vez, Deseja a mesma lucidez E atingir tão avançada idade Com a mesma tenacidade.
Leopoldina recebe o adolescente De braços abertos, em sua sala, E, muito mais do que fortuna E muita saúde para alcançá-la Deseja-lhe, pura e simplesmente, Muita luz e muita inteligência Para que, no encontro com a urna, Vote com a mais alta consciência Um voto bem pensado e certeiro Dado ainda na adolescência E que seja esse o primeiro De muitos bons votos em sequência. No dia em que ele apaga as velas Quem nos dá o maior presente é ela Com a lição que resiste ao tempo E da qual tanto necessitamos Assim também a todos desejamos Um bom voto, inspirados neste exemplo
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.