Espírito Santo tem “bancada de direita” na Câmara dos Deputados
7 a 1
Espírito Santo tem “bancada de direita” na Câmara dos Deputados
Com seus 10 representantes, bancada capixaba na Câmara Federal tem 7 deputados claramente posicionados à direita. O único manifestamente de esquerda é Helder Salomão (PT)
Os sete deputados de direita do ESCrédito: Amarildo
Com seus 10 deputados federais, a bancada do Espírito Santo na Câmara dos Deputados é, predominantemente, uma bancada de direita. Dos dez representantes capixabas, pelo menos sete são parlamentares notoriamente pertencentes a esse campo político (ainda que nem todos o sejam de maneira manifesta).
Temos então, no mínimo, um 7-2-1, ou, vá lá, um 7 a 1 mesmo. De todo modo, dentro da nossa bancada na Câmara, a direita hoje ganha de goleada. É uma situação sui generis, pois essa disparidade toda não traduz a realidade da correlação de forças políticas na Câmara, no Congresso Nacional e no país atualmente, e é de se imaginar que, nas bancadas de outros Estados, essa divisão entre esquerda e direita seja mais equilibrada.
A desigualdade na divisão de forças ideológicas em nossa bancada de federais já era observada desde as eleições de 2018. Mas esse “desequilíbrio de forças”, que já era grande, tornou-se ainda maior com a substituição, em janeiro, de Sérgio Vidigal (PDT) por Neucimar Fraga. O que antes era um 6 a 2 transformou-se em 7 a 1.
Agora de volta à Prefeitura da Serra, Vidigal era um deputado discreto e não tinha perfil de militância combativa de esquerda no Parlamento como Helder Salomão, por exemplo. Mas é o presidente e maior líder em solo capixaba do PDT (partido de centro-esquerda), apoiou Ciro Gomes à Presidência em 2018 e o apoiará novamente, se ele for candidato, no ano que vem.
Já Neucimar é um bolsonarista roxo. Portanto, do ponto de vista ideológico, não foi de forma alguma uma troca “de seis por meia-dúzia”: saiu um deputado de centro-esquerda; entrou em seu lugar um de direita.
VITÓRIA DE LAVADA DE BOLSONARO
Perceptível desde o resultado das urnas em 2018, essa inclinação à direita da nossa bancada na Câmara ganhou contornos ainda mais nítidos na eleição da presidência da Casa, no último dia 1º, vencida pelo deputado alagoano Arthur Lira (PP), com o apoio manifesto do presidente Jair Bolsonaro – por sua vez um político que, por muitos de seus posicionamentos antes e depois de chegar à Presidência, pode ser considerado de extrema-direita.
Mas a goleada na verdade foi ainda mais elástica. Da Vitória e Ted Conti não declararam, mas podemos afirmar, sem erro, que o voto do primeiro foi em Lira. Da Vitória chegou a publicar foto ao lado de Lira felicitando-o pela vitória e só não declarou seu voto porque seu partido, o Cidadania (aliás, de centro-esquerda), apoiou oficialmente Baleia Rossi, enquanto ele optou pelo adversário, num caso clássico de defecção.
Quanto a Ted Conti, não se tem certeza. Em todo caso, temos então um 7 a 2 que pode até ter sido na verdade um 8 a 2 a favor de Lira (logo, de Bolsonaro).
Primeiramente, no time da direita, temos as três mulheres que compõem a nossa bancada na Câmara. Em comum além do gênero, as três têm carreiras políticas, pelo menos na origem, bastante atreladas aos respectivos cônjuges (ou ex-cônjuge, no caso de Lauriete):
Soraya foi lançada pelo marido, Carlos Manato (sem partido), em 2018, e foi eleita em sua esteira; Norma teve as eleições impulsionadas pelo marido, Theodorico Ferraço (DEM), e pelo ferracismo no sul do Espírito Santo; Lauriete foi lançada pelo então marido Magno Malta (PR) a deputada em 2014, tendo sido reeleita em 2018, ainda muito associada pelos eleitores a Magno, de quem se separou em seguida.
Manato, Ferraço e Magno: os três são políticos de direita, assim como as três deputadas.
Ao lado de Soraya Manato, Evair e Neucimar se perfilam como os três defensores incondicionais de Bolsonaro e de seu governo na bancada do Espírito Santo na Câmara.
Evair, inclusive, é um dos vice-líderes do governo na Casa. Desde antes da eleição de Bolsonaro à Presidência em 2018, ele já apoiava abertamente o então colega na Casa. Quando Bolsonaro visitou Vitória em pré-campanha, por exemplo, Evair chegou a subir ao seu lado em um trio elétrico na orla de Camburi.
Questionado pela coluna se ele se considera de esquerda, Da Vitória negou: “Nem se eu dissesse isso, ninguém ia acreditar… Isso não tem nada a ver comigo”.
Quanto a Amaro, na verdade seus posicionamentos políticos e ideológicos são algo meio indefinido, mas o classifico sem titubear como um deputado de direita por um motivo muito simples: seu partido. Sócio de carteirinha do Centrão, o Republicanos faz parte da base de Bolsonaro no Congresso e não só é um partido de direita ultraconservadora nos costumes como é a legenda vinculada à Igreja Universal do Reino de Deus, dos bispos Edir Macedo e Marcelo Crivella.
Outro ponto digno de nota é que só o PSB tem dois representantes em nossa bancada na Câmara dos Deputados: Rigoni e Ted. Mas, assim como o Cidadania, o partido do governador Renato Casagrande vive dias de “desvio identitário” entre a cúpula nacional (firme e forte na esquerda) e muitos de seus integrantes. Nem Ted nem Rigoni podem ser considerados propriamente políticos de esquerda.
Ted é Casagrande Futebol Clube, quanto a isso não há dúvida, mas sem um perfil político-ideológico muito bem definido. Quanto a Rigoni, é um jovem político de centro, ora com tendências à centro-esquerda (na agenda social e da educação, por exemplo), ora com tendências à centro-direita, especialmente por suas posições clara e expressamente liberais na pauta econômica.
Não por acaso, no primeiro descompasso entre o deputado e a cúpula do PSB, Rigoni pediu ao TSE autorização para deixar o partido sem perder o mandato. Ele votou a favor da reforma da Previdência em novembro de 2019, enquanto a direção nacional do PSB havia orientado o voto da bancada contra o pacote da equipe de Paulo Guedes.
Correção
09/02/2021 - 10:50
No texto original desta coluna, publicada às 2h desta terça-feira (9), havíamos informado com erro o Estado de origem do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira. Ele não é paraibano e sim alagoano.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.