No dia 5 de abril, Bolsonaro praticamente antecipou a demissão do ministro Vélez Rodríguez: “Está bem claro que não está dando certo o ministro Vélez, falta gestão”. Após deixá-lo na fritura por mais três dias sem necessidade, o presidente confirmou a decisão na última segunda: “Basicamente, [faltou] a questão da gestão. O ministro não tinha expertise, aí foi acumulando uma série de problemas (...)”.
Sim, é evidente que faltou gestão. O que não faltou, desde o anúncio de Vélez para o cargo, foram advertências: no currículo do colombiano, um monte de ideias extravagantes, mas zero experiência em gestão para tocar um ministério gigantesco como o MEC. Foi preciso que o MEC virasse um pandemônio para que o presidente se desse conta dessa “lacuna” nas credenciais de seu escolhido?
Se o problema, pois, era de gestão, esperava-se uma nomeação sem viés ideológico para o substituto de Vélez. Não foi o que se deu. O novo chefe do MEC, Abraham Weintraub, pode até ser gestor, mas não é doutor (como anunciado por Bolsonaro) e, assim como o predecessor no cargo, reza pela cartilha do grande guru ideológico de Bolsonaro e da extrema direita brasileira: Olavo de Carvalho. Entre suas primeiras medidas, vai renomear quadros que, tal como ele, são admiradores e ex-alunos do “Bruxo da Virgínia”. A conferir se o MEC será mesmo livrado das disputas ideológicas que até aqui têm paralisado programas educacionais no país. Esperamos que sim.
NAZISMO
Falando em disputas ideológicas inócuas, comentamos aqui ontem, de passagem, a obsessão do chanceler Ernesto Araújo, estranhamente ecoada pelo próprio presidente da República, em sustentar que o nazismo foi (ou é) uma corrente ideológica de esquerda. Para dizê-lo de um modo elegante, a tese é completamente exótica, desprovida de sentido.
Basta dizer que o regime de Hitler, maior expressão concreta da ideologia nazista na História, combateu violentamente o comunismo (esta, sim, uma ideologia de esquerda) antes e durante a Segunda Guerra Mundial (1938-1945), tendo perseguido e exterminado comunistas aos milhares, quiçá aos milhões, em campos de concentração. Chamar Hitler de “comunista” é tão absurdo como dizer que Luís Carlos Prestes foi um líder de direita no Brasil. Aliás, a mulher de Prestes, Olga Benário, comunista como ele, foi uma das milhões de vítimas dos campos nazistas de extermínio. Na década de 1930, a Ação Integralista Nacional, versão tupiniquim do nazifascismo, também combatia o comunismo encarnado então pela Aliança Libertadora Nacional, vertente brasileira do movimento comunista europeu.
Não se trata, por óbvio, de defender o comunismo – que também fez milhões de vítimas em regimes totalitários de esquerda na União Soviética, na China e em diversas outras partes do mundo, o que é igualmente repulsivo. Trata-se tão-somente de respeitar os fatos históricos. Para Ernesto Araújo, porém, sua leitura muito peculiar da História se sobrepõe ao que é consenso na comunidade acadêmica internacional, inclusive entre os pesquisadores alemães. E passa a valer como discurso oficial do governo brasileiro no exterior.
É o que estrategistas de Trump definiram como “alternative facts”, na era da pós-verdade inaugurada por sua chegada à Casa Branca. Além da desonestidade intelectual, é mais uma briga ideológica completamente inútil para os brasileiros.
AUTOSSABOTAGEM
Nos últimos dias, o presidente Bolsonaro emitiu frases que em nada ajudam a si mesmo, como “Não é fácil sentar nesta cadeira” e “Não nasci para ser presidente”. Se a ideia era expressar humildade, transmitiu excesso de sinceridade. No limite, foi uma confissão de falta de vocação para o cargo. Defendeu, ainda, que seu filho Carlos, chamado de Tonho da Lua até por partidários de Bolsonaro, merecia um ministério, o que dá a medida do grau de exigência técnica do presidente para a formação do seu primeiro escalão.
MANGANDO DOS POBRES
Em paralelo, ministros de Bolsonaro seguem a produzir pérolas de humor involuntário. A mais recente veio da ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM), para quem “nós não passamos muita fome, porque nós temos manga nas nossas cidades”. Terá sido inveja de Damares?
AGENDINHA
Nos seus primeiros meses de governo, Jânio Quadros investiu em uma agenda de miudezas e excentricidades: em nome da moralidade, proibiu a realização de provas de turfe em dias úteis, as brigas de galo e os desfiles de misses com “maiô cavado”. Nos seus primeiros meses de governo, Bolsonaro acumula preocupações com placas do Mercosul, radares, liberação de visto para norte-americanos e, claro, o golden shower. Todos sabem o desfecho do governo de Jânio.
DESTAQUES
Enquanto isso, chamando bem menos atenção, há dentro do governo Bolsonaro um governo que tem dado certo. Em geral, os militares têm se destacado pelas demonstrações de equilíbrio, contenção e lucidez. O Ministério de Infraestrutura é outro destaque, com a agilidade que tem dado a processos de concessões de rodovias e aeroportos.