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Vitor Vogas

Luciano e Casagrande: uma mão lava a outra

Publicado em 20 de Março de 2019 às 02:01

Públicado em 

20 mar 2019 às 02:01
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

O governo do Estado realizou, na manhã de ontem, com direito a transmissão ao vivo no Facebook de Casagrande, um ato para marcar a liberação do acesso à Avenida Leitão da Silva, pelas ruas Dona Maria Rosa (lá no início, quase em Andorinhas) e Das Palmeiras. A obra começou em 2014, no governo passado de Casagrande, e passou todo o governo Paulo Hartung com uma cabeça de porco enterrada. Agora, Casagrande promete que a obra será entregue até novembro. Diz que, desde janeiro, o governo tem acelerado o ritmo, com mais homens trabalhando e o dobro do número de equipamentos operando. “Então nós vamos abrindo essa via, para que a gente possa dar a condição de o movimento voltar à Leitão da Silva.”
A Leitão da Silva é simbólica. Não é só ela que está sendo desobstruída. A outra via que tem sido reaberta – mais importante ainda, neste contexto – é a da parceria político-administrativa entre a gestão do prefeito Luciano Rezende (PPS) e o governo do Estado. Durante os últimos quatro anos, Luciano, adversário político de Hartung, ficou praticamente à míngua de investimentos do Estado. E, com ele, Vitória. Como disse Casagrande ao deputado Fabrício Gandini (PPS) em sabatina na Assembleia no último dia 11, a cidade atravessou um deserto. Com o retorno de Casagrande ao Palácio Anchieta, a relação passou a outro patamar; mudou da água para o vinho.
O primeiro e emblemático sinal dessa mudança radical de “status do relacionamento” foi dado pelo próprio Casagrande, na primeira semana de janeiro. Logo após a posse, em ato também altamente simbólico, ele fez questão de receber Luciano em seu gabinete antes de todos os demais prefeitos e anunciar, também por meio de uma live, algo prosaico, quase banal, se não tivesse um significado político muito mais profundo: o retorno do desfile de Sete de Setembro para Vitória, tirado da Capital por PH.
Amanhã, Casagrande e Luciano celebrarão um novo ato que vai muito além de simbolismos políticos e que tem importância prática muito maior na vida dos moradores de Vitória: governo do Estado, prefeitura e Cesan firmarão o contrato que prevê quase R$ 900 milhões em investimentos da empresa pública na Capital em serviços de esgotamento sanitário e abastecimento de água.
O contrato terá vigência de 30 anos. Por meio dele, a Cesan é declarada concessionária e prestadora exclusiva dos serviços públicos de água e esgoto no município. A empresa fica obrigada a realizar uma série de intervenções, inclusive no curtíssimo prazo, em troca da cobrança das tarifas pagas pelos usuários.
Só no sistema de esgotamento sanitário (coleta, transporte, tratamento e disposição final), a Cesan deverá investir um total de R$ 604,2 milhões, sendo R$ 249,5 milhões no curto e no médio prazo.
Já no sistema de abastecimento de água (captação, tratamento, abastecimento e distribuição), a Cesan terá de investir um total de R$ 278,4 milhões. No curto e no médio prazo, serão R$ 159 milhões.
Assim, nos próximos anos, Vitória deverá receber mais de R$ 400 milhões em investimentos da Cesan. A Agência de Regulação de Serviços Públicos do Espírito Santo (Arsp) será responsável pela fiscalização do contrato.
O iminente aperto de mãos entre Estado e município marca o fim de uma novela que foi parar em um tribunal e que representou o ápice da péssima relação entre o governo de Paulo Hartung e a administração de Luciano.
Nos últimos anos, a Cesan foi o centro de uma batalha política que colocou frente a frente o governo estadual – acionista majoritário da Cesan – e a prefeitura, chamada por nós aqui de “a guerra do esgoto”. Luciano e seus subordinados levaram para debate público a qualidade dos serviços oferecidos pela Cesan. Deram entrevistas alegando que os serviços não eram compatíveis com os valores das taxas cobradas da população; que o percentual de cobertura de rede de esgoto tratado era inferior aos divulgados pela Cesan; e que, acima de tudo, faltava transparência por parte da empresa na divulgação desses dados.
Em 2017, a prefeitura chegou a abrir uma Manifestação de Interesse Público, anunciando a sua disposição de transferir a concessão do serviço para outra empresa interessada. O governo, é claro, não ficou assistindo a tudo imóvel. Tomou suas providências legais contra a movimentação da prefeitura, enfim barrada pelo Tribunal de Contas do Estado.
Agora, as batalhas tribunalescas dão lugar a paz, amor e harmonia. Além, é claro, dos investimentos. Como secretário municipal de Gestão, o agora deputado Gandini participou desse processo. Ele conta que o contrato a ser firmado amanhã já estava em discussão com o governo de Hartung há algum tempo e que, após a eleição de outubro, o governo chegou a procurar a prefeitura propondo a assinatura no fim de 2018. Aí foi Luciano quem não teve pressa alguma. Ele, que tanto acusou a “mão peluda” no governo passado, agora esfrega as mãos e prefere apertar a de Casagrande para fechar esse contrato. Afinal, agora a mão de um está lavando a do outro. Em breve, com água tratada.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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