Luiz Paulo volta ao ninho tucano a fim de podar as asas de Vandinho
Guerra à vista!
Luiz Paulo volta ao ninho tucano a fim de podar as asas de Vandinho
De volta ao ninho tucano e tornando a fazer política partidária no interior do PSDB, o ex-prefeito representa uma ameaça e uma disputa certa, eleitoral e ideológica, com o atual presidente da sigla no ES
Com longa história no PSDB, do qual se apartou circunstancialmente em 2018, o ex-prefeito de Vitória não parece disposto a ficar vendo, passivamente, o seu antigo partido trabalhar para eleger um candidato a prefeito que faça oposição ao governo Casagrande e que não esteja no campo político do governador, do qual hoje ele é parte.
Tampouco parece resignado a ver o “seu” PSDB, nascido em 1988 como partido social-democrata (de centro-esquerda), tomar um caminho tão distante de sua identidade original em Vitória, ajudando a eleger um candidato que pouco tem a ver com o ideário daquele partido idealizado por FHC e Mario Covas, entre outros.
Diferentemente de Luiz Paulo, Pazolini, Vandinho Leite e Amaro Neto – hoje aglutinados na eleição em Vitória – são políticos de direita. Vandinho e Pazolini, declaradamente de direita. Na Assembleia Legislativa, no que concerne à pauta comportamental, ambos por vezes adotam posições numa linha meio Bolsonaro, flertando um pouco com o discurso do ex-senador Magno Malta (PL). Pazolini, aliás, tem quadros ligados a Magno indicados por ele em cargos na Assembleia.
Ou seja: Luiz Paulo de volta ao ninho tucano, e voltando a fazer política partidária no interior do partido, representa, potencialmente, uma disputa com Vandinho não só do ponto de vista da definição de candidaturas e estratégias eleitorais. Representa, para além de tudo isso, uma disputa de teses de fundo ideológico.
A leitura, então, é a seguinte: Luiz Paulo não saiu do Cidadania mal com Luciano, ou por ter brigado com Luciano. Nada disso. Mesmo fora do Cidadania, se pensarmos a “geopolítica capixaba” atual, o ex-prefeito continua no mesmo time de Luciano, assim como também continua no time do governo Casagrande – do qual por sinal fazia parte até a semana passada, como presidente do Instituto Jones dos Santos Neves, o órgão de pesquisas científicas do Executivo estadual.
Os dois times são os mesmos, aliás, integrados que são os partidos de Casagrande e de Luciano na aliança PSB/Cidadania, hoje assentada no poder no Espírito Santo.
Em sua volta literalmente “por cima” ao PSDB – já que teve o passaporte de reingresso carimbado pela direção nacional do partido, a despeito da decisão da Executiva de Vitória que havia barrado o seu retorno –, Luiz Paulo deve buscar operar internamente, nos próximos quatro meses, para “redirecionar” aquela rota já traçada por Vandinho para o PSDB: apoiar Pazolini já no 1ºturno, ou lançar no 1º a vereadora Neuzinha de Oliveira para apoiar no 2º o delegado de polícia licenciado.
Na prática, isso significa que Luiz Paulo pode ou trabalhar realmente, dentro do PSDB, a sua própria pré-candidatura; ou buscar levar o PSDB a apoiar, na Capital, o deputado estadual Fabrício Gandini, presidente estadual do Cidadania e candidato, desde sempre, de Luciano Rezende; ou buscar “puxar” o PSDB para a coligação do deputado estadual Sergio Majeski (se este acabar sendo candidato a prefeito pelo PSB).
Em qualquer uma dessas hipóteses, Luiz Paulo deve se empenhar, acima de tudo, para impedir ou pelo menos dificultar a aderência automática do PSDB à candidatura de Pazolini pelo Republicanos na Capital. Em outras palavras, melar os planos de Vandinho Leite, hoje à frente do PSDB no Espírito Santo, e ajudar a esvaziar essa coligação que envolve adversários do governo Casagrande e da aliança PSB/Cidadania.
Por que “acima de tudo” bloquear uma candidatura de Pazolini? Porque, para o governo Casagrande (polo PSB/Cidadania), eventual candidatura de Amaro Neto em Vitória pelo mesmo Republicanos até seria palatável. Assim também eventual vitória do deputado federal na Capital. Tanto que o governador chegou a discutir eleições pessoalmente com Amaro – reuniram-se no Palácio Anchieta em pelo menos três oportunidades, entre dezembro e março.
Já eventual candidatura de Pazolini na Capital pode incomodar, e muito, o Palácio Anchieta: assim como faz rotineiramente na Assembleia, o deputado, durante a campanha, com certeza baterá no governo estadual. Se ele vier a ganhar, então, o governo Casagrande terá, a princípio, o dissabor de lidar com um prefeito nem um pouco aliado do Palácio, na cidade politicamente mais importante do Estado.
De volta ao ninho, então, Luiz Paulo – com suas características verve e capacidade de formulação – tem potencial para, no mínimo, tentar fazer uma disputa interna de teses e sacudir as coisas em um partido que parecia estável sob a liderança de Vandinho no rumo traçado pelo deputado.
Do ponto de vista mais prático, pensando nas definições eleitorais em Vitória, Luiz Paulo pode cumprir um objetivo estratégico para ele mesmo e para aquele time PSB/Cidadania: levar o PSDB a apoiar Gandini ou Majeski (em caso de candidatura do último) ou, no mínimo, impedir que o partido pelo qual ele próprio governou Vitória de 1997 a 2004 apoie Pazolini.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.