Marcus Alves: "UDN vai ser o partido mais sério do Brasil"
Vitor Vogas
Marcus Alves: "UDN vai ser o partido mais sério do Brasil"
Para dirigente que tenta refundar partido extinto em 1965, DEM é partido de centro. Já o PSL, de Bolsonaro, é mistura de "socialismo com liberalismo". "Não combina, mas respeito a ideologia"
Capixaba de Mimoso do Sul, o dirigente partidário Marcus Alves, 54 anos, mudou-se para São Paulo em 2016, após muitos anos comandando o PRP no Espírito Santo, para perseguir e concretizar um sonho: refundar, em nível federal, a União Democrática Nacional (UDN). Liberal na economia, conservadora nos costumes – combinação muito em voga no governo de Jair Bolsonaro –, a UDN existiu de 1945 a 1965, ano em que foi extinta por força do Ato Institucional nº 2, baixado pelos militares no poder. Teve como ícones figuras como Afonso Arinos e, principalmente, o jornalista Carlos Lacerda, maior líder da UDN original.
Agora, o novo presidente nacional é Marcus Alves. O dirigente não alimenta a especulação – que chegou a ganhar força em fevereiro – de que o presidente Jair Bolsonaro possa trocar o PSL pela nova UDN, quando ela for “refundada”. Por outro lado, alimenta grandes planos para o partido, que ainda carece de registro em sua nova versão: segundo ele, a meta, só no Espírito Santo, é eleger dez prefeitos em 2020. Até lá, ele espera atrair para a sigla governadores com mandato – pelas contas de Alves, de 12 a 13 já manifestaram interesse em se filiar à UDN.
Para quem porventura acha que o capixaba possa estar de brincadeira, ele avisa, na entrevista abaixo: “Queremos que a UDN seja o partido mais sério do Brasil”. Confira os planos do dirigente:
O que falta para que a UDN esteja oficialmente registrada junto ao TRE?
O partido já está todo registrado, com CNPJ e com sede em Brasília. Estamos na última fase, que é a homologação das assinaturas. Hoje temos aproximadamente 300 mil (a Justiça Eleitoral exige mínimo de 497 mil, espalhadas por, pelo menos, nove Estados). Queremos homologar o partido com um número elevado de assinaturas. Temos dois anos, contados desde 1º de outubro de 2018, para conseguir a homologação. Nossa previsão final é de abril para começo de maio. Para isso, estamos criando a UDN Mulher, a UDN Afro, a UDN Jovem, a UDN Segurança, a UDN Saúde, a UDN Cristã... Cada um desses segmentos está recolhendo também as assinaturas. Queremos reforçar as bases da militância e que a UDN seja um partido com representatividade, que o eleitor saia de casa para votar num candidato que de fato o represente. E queremos, principalmente, empoderar as mulheres. Queremos investir muito em capacitação e formação política de mulheres. É inadmissível a baixa representatividade política na área da mulher.
Quais serão as principais bandeiras e a linha ideológica da nova UDN?
A nova UDN vai seguir as mesmas características da UDN antiga: será um partido conservador, com DNA de direita, com liberalismo econômico, e um partido que realmente vai combater a corrupção. A UDN vem com a mesma ideologia que a antiga, só que com algumas coisas que vão se modernizando.
Em que aspectos, por exemplo?
Por exemplo, na questão da mulher. Em nossa época, a mulher nem votava. A mulher nem podia ser votada*. Então hoje a gente vem buscando o empoderamento das mulheres. São atualizações que antes a gente não tinha. São detalhes, conceitos novos. Mas a base é a mesma.
E o que a nova UDN terá em comum com a UDN de Carlos Lacerda?
O combate à corrupção. Esse será o nosso foco principal. Seremos implacáveis no combate à corrupção. Em todos os livros que você buscar aí, de Carlos Gomes, de Carlos Lacerda, do João Vilasboas, do Afonso Arinos, são pessoas que você olha e você não vê um vinco de corrupção na história dessas pessoas. Temos a responsabilidade de ser ainda mais sérios do que eles foram. Não podemos jogar esse passado fora. Queremos que a UDN seja o partido mais sério do Brasil.
É real a possibilidade de Jair Bolsonaro trocar o PSL pela UDN, uma vez que o partido esteja fundado, levando vários aliados hoje também filiados ao PSL? Como está esse diálogo hoje?
Olha, o que a gente definiu internamente é homologar a UDN. Uma vez que ela esteja homologada, não vamos fechar as portas para que os políticos possam ingressar, desde que tenham comprometimento com postura séria. A UDN não será um partido de aluguel no qual qualquer um vai entrar. Você tem que ter uma história de vida para entrar. Se estiver respondendo a qualquer crime, você não entra na UDN. E, uma vez que entrou, se você se corromper durante o mandato, será expulso da UDN.
Por que refundar a UDN em vez de criar um partido novo, com um novo nome?
Pela história da UDN. A gente pensou muito nessa questão de qual partido seria. Então ficamos com medo de criar uma sopa de letras. E começamos a estudar a história da UDN, muito bonita e muito séria. Por exemplo, lá em 1945, o Afonso Arinos fez o projeto de lei contra a discriminação racial. Tivemos esse privilégio de ver que a UDN não estava registrada e a registramos.
Em entrevistas dadas em fevereiro, o senhor afirmou que a UDN será “o maior partido de direita do país”. Por que isso? O que ela terá de diferente dos demais?
O “maior” que eu falo é em qualidade, não em quantidade. Qualquer membro da UDN com mandato ou cargo público, seja ele quem for, pode ser até ministro, não poderá se envolver com corrupção. Isso valerá para todos. A pessoa vai assinar um documento sabendo da nossa regra: se corrompeu-se aqui, será expulso. Essa foi a interpretação que eu quis dar. A gente não quer filiar qualquer um. A gente não quer um tsunami, porque num tsunami vem caco de vidro, arame farpado… Tem que ter regra. E essa regra vale para todos. Não estamos criando um partido de aluguel.
Vale inclusive para os Bolsonaro?
Vale para todos. Somos todos iguais, não tem exceção. Não tem companheirismo aqui dentro.
Indo um pouco além, o senhor chegou a afirmar, em entrevista para A GAZETA publicada em 19 de fevereiro, que a UDN será “o único partido de direita do Brasil”. Para ficar em um exemplo, o DEM nasceu lá do PFL, por sua vez uma derivação da Arena, partido que deu sustentação à ditadura. O DEM não tem DNA de direita?
O DEM é de centro. O único partido do Brasil que tem realmente DNA de direita é a UDN. O resto é centro, centro-esquerda ou extrema-esquerda. E os extremos também não são bons.
E o PSL, como o senhor classifica?
O PSL é um partido “social liberal”. Socialismo com liberalismo não bate muito. Não casa. Mas respeito todos. Cada um tem a sua ideologia e a sua forma de pensar.
O senhor dirigiu por muitos anos o PRP no Espírito Santo. Como define o partido ideologicamente?
Veja bem, ele é um partido republicano progressista, né? Enfim… que hoje acabou, não existe mais, não passou pela cláusula de barreira. Peguei esse partido em 1997 quando não tinha nem vereador e o transformei no segundo maior do Espírito Santo. Tinha alguns comportamentos com os quais eu não era de acordo. Nacionalmente, o partido tinha dono. Tenho muito a agradecer, aprendi muito com eles, mas sua voz ali não tinha eco.
Ícone maior da UDN, Carlos Lacerda apoiou o golpe de 1964, como governador da Guanabara, acreditando que os militares convocariam novas eleições gerais. Logo se arrependeu. Em 1966 lançou a Frente Ampla, movimento de resistência institucional à ditadura. Em 1968 foi preso e cassado. A própria UDN foi cassada em 1965. Nesta semana, o presidente Bolsonaro orientou os quartéis a comemorarem o golpe de 1964. O senhor concorda com isso?
Olha, entenda bem, inicialmente a ideia do militarismo é porque o Brasil iria para o comunismo. Jornalistas como Carlos Lacerda e Roberto Marinho inicialmente participaram dessa construção, mas não para que os militares se perpetuassem no poder, como ficaram. Uma vez que perceberam que aquilo se transformou realmente numa ditadura, essas pessoas saíram do movimento e foram contra. Lacerda não concordou com isso e se retirou. Foi feito um combinado de que seria um período de dois anos, transitório, e a democracia voltaria depois. Só que isso não foi feito. Então, no meu ponto de vista, não vejo o que comemorar nisso.
* Só para constar, a UDN existiu de 1945 a 1965. Alves nasceu nos anos 1960. Naqueles tempos, realmente, a participação feminina na política era extremamente limitada. Mas, a rigor, mulheres já tinham o direito de votar e de se candidatar a cargos eletivos desde 1932. O direito foi conquistado durante o primeiro governo de Getúlio Vargas.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.