Lorenzo Pazolini reclamou com a Mesa Diretora em dado momento da sessão desta terça-feira (15) na Assembleia: já haviam saltado para o item seguinte da pauta, mas ele ainda queria discursar sobre o anterior. Seu pedido foi atendido. Antes de ele iniciar mais um dos muitos discursos que tem feito para criticar a gestão de Casagrande, o líder do governo, Enivaldo dos Anjos (PSD), ironizou-o: “Pode deixar o deputado se deleitar no prazer de fazer oposição. Esta é bem-vinda sempre. Principalmente quando o governo é sério”.
A cena reflete bem o clima no plenário no momento. O próprio líder de Casagrande já trata publicamente Pazolini como opositor devido ao movimento que tem feito. E o jovem deputado não está sozinho nisso. Como mostramos aqui ontem, ele faz parte de um bloco informal composto por dez deputados, unidos hoje pela insatisfação com o governo. Abertamente, nenhum dos dez admite oposição. Por ora, declaram-se “independentes”. Mas esse princípio de rebelião, se não abafado, dá sinais de poder evoluir para um movimento de oposição ao governo. As críticas e queixas contidas em seus discursos falam por si, assim como a estratégia do grupo de obstruir a pauta de interesse do Executivo com uma sucessão de discursos vazios e protelatórios.
Pela assiduidade na tribuna (e nas críticas), os destaques do movimento são, além de Pazolini (sem sigla), Favatto (Patri), Assumção (PSL) e Vandinho (PSDB).
Levando ao extremo a estratégia de bater no governo em todos os flancos possíveis, Pazolini chamou de “grande falácia” e “grande balela” o discurso sobre a redução do índice de homicídios. No 1º trimestre, a taxa no Espírito Santo caiu 14,7%, na comparação com o mesmo período do ano passado. Resultado positivo, digno de cumprimentos, certo? Para Pazolini, não. Mostrando um pouco de má vontade e muita predisposição a criticar o governo, o deputado exibiu uma tabela da redução em todos os Estados, destacando que no campeão, o Ceará, a queda no mesmo intervalo foi de 55%. Ou seja, não está bom não. Aqui, caiu foi pouco.
Outra prova do grau de animosidade está nesta declaração de Vandinho, feita da tribuna: “O governo tinha que fazer um mea-culpa. Aqui ninguém é oposição por oposição e ninguém se colocou como oposição. (...) O governador está perdendo a capacidade de diálogo. Está um governo arrogante, um governo sem diálogo, um governo que está errando muito”.
Segundo Pazolini, trata-se apenas de uma “tentativa de retomada do diálogo”. Já Marcos Mansur (PSDB) diz que o bloco não é de oposição. Mas que é um bloco coeso. Assim, a ideia dos dez é votar em bloco em tudo daqui para a frente, como aliás já têm feito – funcionando, portanto, como uma bancada informal. Tem mais: eles estão fechados no bloco, mas o bloco não está fechado: pode receber mais gente. Sem citar nomes, ambos afirmam já ter sido procurados por outros colegas. O 11º jogador a ingressar no time pode ser Theodorico Ferraço (DEM), outro que já externou contrariedade com Casagrande.
Este começou o mandato com uma base confortável. Em quatro meses, o quadro é esse. A título de comparação, constantemente criticado por falta de diálogo, Hartung não enfrentou nada próximo a isso – ao longo de quase todo o mandato passado, lidou com três ou quatro opositores avulsos. Já a Casagrande costuma ser atribuída, inclusive por ele mesmo, “capacidade de diálogo”. É bom exercitá-la agora. Se o princípio de rebelião não for contido e o movimento ganhar força, sua governabilidade pode até ficar ameaçada.