Vinícius Valfré
Pelas mãos de José Serra, o Brasil, após 13 anos, assumiu uma postura nada complacente com governos bolivarianos da vizinhança. O novo chefe do Itamaraty inaugurou uma política externa menos atrelada a fatores políticos e ideológicos e mais voltada a aspectos pragmáticos do desenvolvimento comercial.
Na avaliação de especialistas em Relações Internacionais, o Brasil ganha com esse novo perfil. Embora não seja exatamente ruim promover a política da boa vizinhança, privilegiar parceiros pouco expressivos economicamente não cabe a um país com as dimensões brasileiras.
É possível ser mais economicamente favorecido do que insistindo em parcerias com países como Cuba, Bolívia, Venezuela, Argentina e, mais longe, Irã.
“Por 13 anos, o governo entendeu política externa como política, e buscou aproximar-se de países com perfil semelhante, de perfil desenvolvimentista, de Estado como ferramenta de desenvolvimento. Agora, teremos uma política externa menos política e mais comercial”, comentou Rodrigo Cerqueira, jornalista e especialista em política externa, da UVV.
Ao assumir o carro das Relações Exteriores, Serra não perdeu tempo e virou o volante bruscamente à direita. Engrossou a voz para os países que criticaram o afastamento de Dilma Rousseff e sinalizou interesse em mudar uma regra do Mercosul para que o Brasil possa firmar acordos bilaterais de livre-comércio sem o aval dos demais membros do bloco.
A primeira agenda internacional do chanceler brasileiro foi com o liberal Maurício Macri, na Argentina. Um compromisso repleto de simbolismo, em claro ponto final ao modelo petista. “A política externa do Brasil no governo Dilma foi um dos seus principais fracassos”, sacramenta o ex-presidente da Comissão de Relações Exteriores no Senado Ricardo Ferraço (PSDB).
Esse mesmo princípio abriu as portas brasileiras com pompa e circunstância para o governador do Estado de Miranda, na Venezuela, Henrique Capriles. Dentro do quase inseparável boné com as cores venezuelanas está a cabeça do político que mais ameaça o poderio de Nicolás Maduro.
Os erros deixados pelo PT nesse segmento são matéria-prima para que Serra, como pré-candidato que é, faça a própria movimentação política sem parecer que o faz.
Entrevista
Em entrevista exclusiva à coluna, o governador de Miranda, Venezuela, Henrique Capriles, fala sobre os problemas do seu país e do referendo contra Nicolás Maduro. Na última sexta, o líder da oposição anunciou que foram confirmadas 409,3 mil assinaturas, mais do que o dobro das necessárias para a continuidade do processo (1% dos eleitores). Em 2013, Capriles chegou perto de vencer Maduro, sucessor de Hugo Chávez (50,61% a 49,12%). Outros candidatos foram bem menos votados. Confira a entrevista.
Qual o principal problema do populismo de Nicolás Maduro à população venezuelana?
Maduro é um erro na história do nosso país. Seu legado será o de um governo que destruiu a Venezuela e a levou à pior crise que jamais havia enfrentado, tanto no aspecto econômico quanto nos aspectos social e político. Ao governo de Maduro foi dada a oportunidade de refletir e reconsiderar, mas eles fizeram o contrário. A cada dia que passa a crise se acentua. E isso acontece em razão da incapacidade do governo para resolver os problemas.
O senhor recebeu uma quantidade muito expressiva de votos na eleição presidencial de 2013. Na sua opinião, quando o povo da Venezuela terá um governo que não é chavista? Está perto ou longe de acontecer?
Eu não usaria essas definições. Creio que a pergunta é: 'Quando os venezuelanos terão um governo de progresso, que se preocupe com a sua gente?'. E para isso é que estamos trabalhando há anos. Não concordamos com a maneira como tem sido governada a nossa Venezuela. A luta tem sido longa, mas cada passo bem dado tem trazido progresso. Ao formarmos a 'Unidad Democrática', entendemos que cada ação implementada deve ter conteúdo, uma razão. Foi isso que nos permitiu crescer como uma organização social para, hoje, ser uma maioria no país. O sentimento de mudança está em 80% dos venezuelanos. A situação não se sustenta. A inflação e a escassez de alimentos e de medicamentos supera qualquer situação que já tivemos na história do nosso país. Inclusive, são as mais altas do planeta. Nossa luta é para mudar isso. O governo não entendeu ou não quer entender o que está vivendo o nosso povo, porque a eles, no Palácio Miraflores (sede do governo, em Caracas), não falta nada. Continuaremos lutando. Cada vez estamos mais perto de obter a mudança que o nosso país precisa.
Não há risco de Maduro ser substituído por um governo de oposição também tirano?
O único risco que corremos é continuar nas mãos deste governo, um governo indolente, que não sente as mortes dos venezuelanos que se vão pelas mãos do crime ou mesmo pela falta de medicamentos.
No Brasil, é muito comum a tese de que a Venezuela é uma ditadura. Como o senhor define o sistema político do seu país? De fato, é uma ditadura?
Na Venezuela, o que há é um governo incapaz, que não respeita nem a Constituição que ele mesmo defendeu, que protege-se em outros Poderes para fazer o que quer. Agora, como perdeu a Assembleia Nacional na eleição de 6 de dezembro, sua nova trincheira é o Tribunal Supremo de Justiça. Mas, em breve, sairemos disso.
Nas eleições de 2013, toda a oposição se uniu para apoiar o senhor, com a Unidad Democrática. A união continua? É a única maneira de vencer?
A Unidad Democrática foi mantida e permanecerá unida. Sabemos que só assim poderemos conseguir uma mudança. A união faz a força.
Acredita ser possível tirar do papel o referendo revogatório que poderá remover Maduro?
A Constituição do nosso país é muito clara, seu artigo 72 estabelece o referendo revogatório. Dá ao nosso povo a oportunidade de mudar um governo que não serve através do revogatório. É um direito constitucional. Nesse processo, o povo convoca e o povo revoga. E a voz do povo é sagrada. Claro, estamos diante de um governo trapaceiro, que se esconde atrás das instituições que controla para não dar as caras. Eles aplicaram a 'operação morrocoy' (expressão venezuelana para atrasos em processos) em cada etapa do processo. Os passos são muito simples, mas, agora, a eles não convêm ir ao revogatório porque sabem que vão sair do governo, que vão perder. Não querem cumprir nem suas próprias regras. Por isso, inventam outras, como os 40 dias que colocaram para a verificação de 1% das assinaturas a favor do referendo. Isso não fazia parte das regras, mas nenhuma das novas invenções do governo vai nos deter. Os venezuelanos precisam mudar para sair da crise em que nos meteu esse governo. Lutaremos para que a Constituição seja respeitada.
Muitos brasileiros consideram um erro o Brasil manter um bom relacionamento com Maduro. O que o senhor espera da relação do governo de Temer com a Venezuela?
No último dia 14, estivemos no Brasil e fomos muito bem recebidos. Agradeço ao governo brasileiro por esse gesto durante a nossa visita. Também sou muito grato às palavras do chanceler José Serra, que nos fez saber que não pode permanecer indiferente aos problemas que enfrenta nossa Venezuela. E isso não significa interferência em nossos assuntos internos. O chanceler nos disse que vai insistir junto à ONU e à OEA, com o objetivo de ajudar a remediar a difícil situação da Venezuela. Lembremos que o Brasil ofereceu ajuda ao nosso país com medicamentos, mas lamentavelmente não teve receptividade do governo de Maduro. Nossa visita ao Brasil foi enquadrada em passagens por Paraguai, Argentina e Panamá. Nosso objetivo é insistir na região para que se faça respeitar a nossa Constituição. Pedimos ajuda dos países latino-americanos para que sejam respeitados os canais democráticos.