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Política

De Lincoln para Jair Bolsonaro

"Pode-se enganar todas as pessoas por algum tempo e algumas pessoas durante todo o tempo. Mas não se pode enganar todo o mundo por todo o tempo", Abraham Lincoln

Publicado em 12 de Maio de 2018 às 21:36

Públicado em 

12 mai 2018 às 21:36
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

Abraham Lincoln é um mártir da democracia norte-americana. Um verdadeiro defensor das liberdades individuais e dos direitos humanos, princípios materializados em sua luta contra a escravidão dos negros, abolida naquele país após a guerra civil de 1861 a 1865. Lincoln também foi um grande pensador político e deixou aforismos repletos de sabedoria, ao contrário de certos mestres da boçalidade que ganharam imerecida relevância na política brasileira. Disse Lincoln certa vez: “É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é um idiota do que falar e acabar com a dúvida”.
O deputado Jair Bolsonaro (PSL) faria bem, para o país e para si mesmo, se compreendesse a mensagem de Lincoln. Assim pararia de se envergonhar com declarações patéticas (que me desculpe o fã-clube) como a que proferiu em entrevista a uma rádio de Belo Horizonte na manhã da última sexta-feira.
Em vez de se calar (como ele próprio defende que as minorias façam), o pré-candidato ao cargo que um dia já foi de Ernesto Geisel não perde uma chance de abrir a boca só para reafirmar a sua absoluta falta de brilhantismo.
Comparar o assassinato político de centenas de brasileiros pelo aparato repressor do Estado durante a ditadura militar com um tapa na bunda de uma criança é tão estúpido quanto comparar uma briga de bar ao genocídio cientificamente planejado de judeus pelos nazistas em campos de concentração. É uma analogia tão ridícula e infeliz que só revela o despreparo intelectual, para não dizer o primitivismo, do seu autor.
O relatório da CIA que agora vem à tona comprova, documentalmente, aquilo de que sempre se suspeitou, mas que nunca se conseguiu provar: o andar de cima do governo militar foi cúmplice das atrocidades praticadas nos porões da ditadura. Geisel em pessoa – logo ele, até então considerado um general-presidente mais moderado – autorizou a execução de “subversivos perigosos”, o que, como escreveu Clóvis Rossi, “introduz uma pitada aberrante ao que já era uma aberração”. A licença para matar partia de dentro do Palácio do Planalto. Como diria Lincoln, “se quiser pôr à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder”.
A se acreditar no documento, estamos diante de um fato cuja gravidade esta coluna não dá conta de exprimir. O que acontecia nos porões do DOI-Codi contava com o conhecimento, a conivência e a cumplicidade de toda a hierarquia do governo. Estamos falando de uma “limpeza política” instituída como política secreta de Estado; uma operação premeditada e meticulosamente planejada de assassinatos em massa executados pelos braços repressores do regime, com as bênçãos de Geisel e, presumivelmente, de seus antecessores na Presidência, considerados muito mais “linha dura”.
Nada de mais, no entanto, para o capitão da reserva que apoia e aprova incondicionalmente tudo o que os militares fizeram no poder (incluindo todos os crimes políticos e violações de direitos) e para quem o grande erro da ditadura, na verdade, foi o de “não ter matado uns 30 mil”, como disse em entrevista a uma emissora de TV em 1999.
Ante a revelação chocante, no lugar de uma autocrítica (a mesma que o Exército jamais fez) ou pelo menos de silêncio respeitoso, Bolsonaro prefere minimizar a gravidade do fato com um comentário debochado e infantiloide: “Quem nunca deu um tapa no bumbum do filho e depois se arrependeu? Acontece”. Tapa na bunda não, deputado. Tapa na cara da sociedade brasileira e, acima de tudo, das famílias dos desaparecidos.
O mais patético é que o capitão, uma caricatura do Exército brasileiro que está longe de representar o que a instituição tem de melhor, afirma-se um defensor das liberdades. É o caso de se perguntar: quais liberdades e para quem? Com certeza não é a mesma ideia de liberdade com que a ditadura tratou Herzog, Stuart Angel, Rubens Paiva e tantos outros.
Bolsonaro dizer-se um defensor das liberdades é algo que desafia toda lógica. Pois se o que ele defende com tanto ardor é exatamente um sistema de governo que representa o oposto do ideal de democracia e que nega aos cidadãos liberdades individuais elementares como a de expressão, a do voto e a de manifestação política... Como também diria Lincoln, “os que negam liberdade aos outros não merecem liberdade”. Também isso nosso “mito” poderia aprender com o herói da luta contra a escravidão nos EUA.
Nada pode ser mais assombroso do que a ideia de se substituir o Estado democrático de direito (não obstante suas imperfeições) por um Estado de exceção, em que os governantes arbitram sobre a vida e a morte dos indivíduos. Nada soa pior do que regredir a um país onde a violência de Estado contra os próprios cidadãos é praticada, legitimada e aceita por parcela da população. Nada mais abominável do que um governo que se dá carta branca para prender, perseguir e assassinar opositores políticos ou qualquer um que os detentores do poder classifiquem como “subversivo” e considerem uma ameaça à ordem estabelecida.
“Ando devagar, mas nunca ando para trás”. Eis outra frase atribuída a Lincoln que cabe bem ao atual momento político atravessado pelo Brasil.
ÓDIO OU AFETO: ESCOLHA
A ideologia de Bolsonaro se baseia no tripé desrespeito, intolerância e violência. Também nisso ele poderia aprender com Lincoln: “Não devemos ser inimigos. Embora o ódio nos leve até o limite, não deve romper nossos laços de afeto”.
"CALEM-SE, MINORIAS!"
O jornalista Vladimir Herzog: morto no DOI-Codi em 1975 Crédito: Arquivo
O pensamento bolsonarista nega ao diferente a existência e se recusa a conviver com ele. Sobre homossexuais, por exemplo, disse ele em 2002: “Se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater”. Assim, quem vive ou pensa de modo diverso ao meu deve ser calado e eliminado. Essa ideia é sintetizada pelo slogan que leva bolsonaristas ao delírio nos comícios: “Minorias têm que se calar”.
NA REALIDADE...
Viver em democracia pressupõe exatamente a coexistência dos diferentes e o direito a voz e voto garantido a todos, ainda que em ampla minoria. Se há 50 pessoas em um recinto e só uma discorda das demais, ela deve ter assegurado o direito de manifestar sua opinião.
CONTRASSENSO
A propósito, no melhor cenário para ele, Bolsonaro chega hoje a cerca de 20% das intenções de voto em pesquisas eleitorais – longe, portanto, de 50% mais um. Matematicamente, isso por acaso não faz dele e de seus apoiadores também uma “minoria”? Sendo assim, seguindo à risca o seu próprio conselho, também ele não deveria se calar?
"PRECISO CONHECE-LO"
“Eu não gosto daquele homem. Eu preciso conhecê-lo melhor”, afirmou Lincoln. Ao contrário de Bolsonaro, o presidente estadunidense pregava precisamente a aproximação e o convívio entre desconhecidos, de modo a vencerem as diferenças e eventuais inimizades. Para ele, era preciso, antes de tudo, tomar a iniciativa de conhecer melhor o outro, a fim de compreendê-lo. A partir dessa descoberta do outro que antes lhe era estranho e do seu reconhecimento, quem antes era inimigo poderia criar laços de amizade. “Não estarei destruindo meus inimigos quando os transformo em amigos?”, questionou o grande presidente.
PRINCÍPIOS
“Os princípios mais importantes podem e devem ser inflexíveis”, disse Lincoln. Princípios inegociáveis são aqueles negados por qualquer ditadura (civil ou militar, de direita ou de esquerda): respeito ao contraditório, à liberdade de pensamento, de expressão e de organização política. Em qualquer civilização, o princípio maior deve ser o respeito.
DEMAGOGIA
Esta aqui de Lincoln não vale só para Bolsonaro, mas também para Lula e alguns heróis duvidosos da esquerda: “A demagogia é a capacidade de vestir as ideias menores com palavras maiores”.
VOTO E DEMOCRACIA
Para encerrar, dois clássicos de Lincoln: “O voto é mais forte que a bala”. Lembre-se disto, eleitor. E também daquela frase de Lincoln que criancinhas norte-americanas repetem nas salas de aula, mas que brasileiros parecem estar perdendo de vista: “Democracia é o governo do povo, pelo povo e para o povo”.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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