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Munah Malek

De Luther King a Ruan e Damião Reis: vidas negras importam

Nos 50 anos da morte de Martin Luther King Jr., jovens negros como os irmãos da Piedade ainda são vítimas da violência e das desigualdades

Publicado em 04 de Abril de 2018 às 15:14

Públicado em 

04 abr 2018 às 15:14

Colunista

Martin Luther King foi assassinado em 4 de abril de 1968 Crédito: Divulgação
 
A luta pelos direitos civis nos Estados Unidos teve seu epicentro no período de 1955 a 1968. Durante esses anos, assistimos ao surgimento de movimentos como o Black Power e os Panteras Negras e de nomes como os de Rosa Parks, Angela Davis, Claudia Jones, Ella Baker, Elaine Brown, Malcom X, Medgar Evers e Martin Luther King Jr.
Luther King iniciou sua luta contra a discriminação racial como reverendo, no Estado do Alabama. Liderou o boicote aos serviços de transporte após Rosa Parks ter sido presa ao recusar-se a ceder lugar no ônibus para um branco. O próprio King foi preso durante um protesto. Em 1960 libertou o acesso dos negros em parques públicos, bibliotecas e lanchonetes. Foi no ano da criação da Lei dos Direitos Civis (1964), que King recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Era um defensor da resistência não violenta como estratégia de combate ao racismo. Em um de seus mais célebres textos, a Carta da Cadeia de Birmingham, diz:
“É lamentável que as manifestações estejam ocorrendo em Birmingham, mas é ainda mais lamentável que a estrutura de poder dos brancos da cidade tenha deixado a comunidade negra sem alternativa (...) Em qualquer campanha pacífica, há quatro passos básicos: coleta dos fatos para determinar se existem injustiças; negociação; auto-purificação; e ação direta. (...) Opus-me veementemente à tensão violenta, mas há um tipo de tensão construtiva, pacífica, que é necessária para o crescimento(...)Um dia, o sul reconhecerá seus verdadeiros heróis. Eles serão as velhas, oprimidas, castigadas mulheres negras, simbolizadas em uma velha mulher de setenta e dois anos de idade de Montgomery, Alabama, que se ergueu com um senso de dignidade e com seus iguais decidiu não viajar em ônibus segregacionistas. (...) Eles serão os estudantes colegiais e universitários, os jovens sacerdotes do evangelho e uma multidão de seus pais, corajosa e pacificamente sentando-se em aparadores e dispostos a ir para cadeia por amor à consciência.” Essas eram as palavras do homem que figurou na lista dos mais perigosos do FBI.
King tinha 39 anos quando foi morto em 1968, um ano após seu discurso contra a Guerra do Vietnã. Cinco anos depois de ter lideradoa Marcha sobre Washington, na qual, em frente a mais de 250 mil pessoas, disse que tinha um sonho (“I have a dream”), um sonho de igualdade que ainda parece distante. O sangue de King, naquele 4 de abril, encontrou as águas já tão ensanguentadas do Rio Mississipi. Medgar Wiley Evers, havia sido morto em 1963, aos 37 anos. Em 1965, Malcom X foi assassinado, aos 40 anos de idade.
Em 14 de março, a mesma bala que matou Evers, King e Malcom X encontrou o corpo, também preto, da ativista Marielle Franco. O que escorre pelas escadarias de nossas comunidades é o sangue de Ruan e Damião Reis que, assim como King, levam o nome de “rei”. Nos dizeres de King: “Jamais estaremos satisfeitos enquanto o negro for vítima dos desprezíveis horrores da brutalidade policial”. Quando reconheceremos nossos verdadeiros heróis e heroínas? Se tardar muito, pode ser que, infelizmente, as homenagens a eles tenham que ser todas póstumas.
* Munah Malek é socióloga e mestra em História

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