Mais da metade dos trabalhadores brasileiros chega ao fim do mês sem dinheiro suficiente para pagar todas as despesas. Segundo pesquisa da Serasa Experian divulgada terça-feira (18), essa é a realidade de 53% dos profissionais entrevistados. O percentual praticamente não mudou em relação ao ano passado, quando era de 54%.
O primeiro impulso diante desse dado é discutir educação financeira. Sem dúvida, organizar o orçamento, evitar dívidas caras e planejar melhor o consumo são atitudes importantes. Mas há uma questão anterior que não pode ser ignorada: para milhões de brasileiros, o problema não está apenas em como o dinheiro é gasto, mas em quanto dinheiro entra todos os meses. E é justamente aí que uma discussão aparentemente distante do cotidiano ganha enorme importância: a produtividade.
No longo prazo, existe um limite para o quanto os salários podem crescer sem que aumente também aquilo que cada trabalhador consegue produzir. Uma empresa pode conceder aumentos pontuais, o governo pode elevar o salário mínimo e períodos de mercado de trabalho aquecido podem pressionar remunerações para cima. Mas aumentos persistentes da renda real precisam encontrar sustentação em uma economia capaz de produzir mais valor por hora trabalhada.
O problema é que esse é um dos grandes gargalos brasileiros. A OCDE destaca que, apesar do crescimento recente da economia e da melhora do mercado de trabalho, o investimento permanece fraco e o crescimento da produtividade está estagnado. O Observatório da Produtividade da FGV IBRE vai além: com o fim do bônus demográfico, elevar a produtividade será cada vez mais determinante para aumentar a renda por habitante e sustentar o crescimento econômico nas próximas décadas.
Produtividade, nesse contexto, não significa trabalhar mais horas ou exigir que o funcionário corra mais. Significa conseguir produzir mais valor com o mesmo tempo de trabalho. Uma máquina melhor, uma estrada que reduz o tempo de transporte, um sistema tributário mais simples, trabalhadores mais qualificados, processos menos burocráticos, maior segurança jurídica, acesso a novas tecnologias e empresas mais bem administradas são exemplos de fatores capazes de elevar a produtividade. Quando isso acontece, cria-se espaço econômico para que os salários também cresçam.
Imagine duas empresas com dez funcionários. Na primeira, problemas logísticos, equipamentos antigos, burocracia e processos ineficientes fazem com que cada trabalhador produza R$ 10 mil em valor por mês. Na segunda, os mesmos dez trabalhadores, utilizando melhores equipamentos, tecnologia e processos, conseguem produzir R$ 15 mil. A segunda empresa possui muito mais espaço para pagar salários maiores sem necessariamente aumentar seus preços ou perder competitividade.
Essa é uma das razões pelas quais países mais produtivos conseguem sustentar salários mais elevados. Não é simplesmente porque decidiram pagar melhor seus trabalhadores. Eles construíram economias nas quais cada hora de trabalho gera mais valor.
O desafio brasileiro, portanto, não pode se resumir a criar empregos. Precisamos criar empregos cada vez mais produtivos. O Banco Mundial aponta justamente a necessidade de aumentar a produtividade, especialmente fora da agropecuária, por meio de melhorias no ambiente de negócios, inovação, abertura comercial, educação e infraestrutura.
Isso muda, inclusive, a maneira de enxergarmos aquele dado do início deste artigo. Quando 53% dos trabalhadores não conseguem terminar o mês com recursos suficientes, precisamos discutir inflação, juros, endividamento e educação financeira. Mas precisamos também fazer uma pergunta mais estrutural: como fazer a renda do brasileiro crescer de maneira sustentada?
Não existe solução simples. Mas existe uma condição indispensável. Se queremos que, daqui a dez ou vinte anos, o trabalhador brasileiro tenha mais dinheiro no bolso, maior capacidade de consumo e melhores condições para formar patrimônio, precisamos fazer com que cada hora de trabalho no Brasil seja capaz de gerar mais valor.
No fim das contas, produtividade pode parecer uma palavra distante da vida das pessoas. Não é. Ela ajuda a determinar quanto uma economia consegue produzir, quanto suas empresas conseguem pagar e, em última instância, quanto dinheiro pode chegar ao bolso do trabalhador. Talvez a discussão sobre o salário que acaba antes do mês precise começar justamente aí.
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