Um empresário bem-sucedido me procurou. Seus negócios iam bem. Sua queixa não era a rentabilidade de seus investimentos, mas o desinteresse dos filhos em se envolver nos negócios do pai. “Já nasceram ricos e nunca colocam o pé na empresa”, disse ele.
Patrimônios relevantes já chegaram ao fim não por crises econômicas ou pelo peso dos impostos, mas por assuntos familiares. Um artigo do CFA Institute, baseado num estudo da consultoria americana Williams Group, que acompanhou mais de 3 mil famílias ao longo de 20 anos, afirma que 70% delas perdem o patrimônio até a segunda geração e 90%, até a terceira. Mais revelador ainda: 60% desses fracassos teriam origem em rupturas de confiança familiar e apenas 15% em questões legais ou de má gestão financeira.
Mas, quando se fala em proteção de patrimônio, muitos creem que investimentos financeiros, imóveis e planejamento tributário são a chave para que esse objetivo seja alcançado. De tempos em tempos, surgem produtos “da moda” que são vendidos como solução para esse tema, porém pouco se fala sobre as relações familiares que estão na base da equação.
E aí entra a frase dita pelo cliente. Para ele, o fato de os filhos terem nascido “ricos” tirava deles o empenho que ele, o fundador, sempre teve em torno de seus negócios. Se seu patrimônio será herdado pelos filhos, suas habilidades enquanto patriarca da família não estão sendo absorvidas pela segunda geração.
Muitas pessoas não poupam esforços para construir patrimônio, mas, paradoxalmente, não dedicam o mesmo tempo e energia para preparar aqueles que um dia cuidarão desse mesmo patrimônio. Convivência, exemplo e formação não se transmitem por contratos em vida, muito menos por inventários judiciais. O resto, sim.
E nisso reside um dos principais desafios para algumas famílias: transmitir mais que bens materiais para seus herdeiros, como visão, coragem e capacidade de assumir riscos e suportar perdas, características típicas do perfil de fundadores.
Em outras palavras, se construir riqueza é prova de habilidade econômica, perpetuá-la é um desafio humano e familiar, que envolve a transformação do patrimônio de um agregado financeiro em um conjunto de propósito e valores. Famílias que conseguem transmiti-los estão administrando mais que ativos e dinheiro: estão cultivando relacionamentos que combinam afeto e eficiência patrimonial.
Terminada a conversa com o cliente, ele disse: “Não é sobre o quanto vale meu patrimônio hoje ou quanto vou deixar, mas sim como estou preparando quem vai cuidar dele”. Fiquei satisfeito por ele ter entendido que, ao contrário da matemática, na equação patrimonial, a ordem dos fatores influencia o resultado.
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