A situação na qual se encontra o nosso país, sobretudo pela densa crise dos últimos três anos, mais dolorosa do lado da economia, mas que também perpassa a organização do Estado, da sociedade e, em especial, a política, acaba nos direcionando para análises, avaliações e opiniões que não têm como escaparem das narrativas que nos convém. Afinal, acionam também nossos desejos e aspirações. Pode bem ser o caso, por exemplo, ao defendermos a tese da supremacia da economia enquanto dimensão orientadora final do voto em outubro próximo.
O tempo até lá é bem curto. Teremos efetivamente dois meses. É o tempo esperado para que o racionalismo, tanto político, mas também econômico, consiga sobrepor-se a um “estado” de desordem e de irracionalidades. Não deixa de ser desafiante. Mesmo assim, é possível vislumbrar um “fio” de esperança que nos possibilita acreditar que as coisas possam mudar.
Nessa perspectiva de racionalidade, estamos vislumbrando o crescimento da economia como aquele mote ou âncora que poderá funcionar como fulcro da campanha política. Mesmo que ainda as pesquisas estejam a nos dizer que as grandes preocupações dos eleitores estejam concentradas na corrupção, na saúde e na segurança.
É possível, e até previsível, mesmo com a forte imprevisibilidade que ainda reina, admitirmos que aquele candidato que conseguir construir, alinhar e passar de forma crível uma narrativa consistente de que o país pode e tem condições de crescer, gerar emprego e renda, poderá estar atravessando o “rubicão”
Ao que nos parece, não será um pauta austera de ajuste de gastos e reformas, muitas delas estruturais e algumas supostamente sustentadas a “chicote”, que empolgarão o público eleitor, muito menos apenas o combate à corrupção.
É possível, e até previsível, mesmo com a forte imprevisibilidade que ainda reina, admitirmos que aquele candidato que conseguir construir, alinhar e passar de forma crível uma narrativa consistente de que o país pode e tem condições de crescer, gerar emprego e renda, poderá estar atravessando o “rubicão”.
Nesse caminhar de “narrativa” no fulcro da economia, que aliás nem é nova, o que se espera e se deseja é que não se abram espaços para atitudes e propostas populistas, fáceis, sabidamente já testadas na história, inclusive bem recente, e que acabaram em retumbantes fracassos. Erros do passado servem para nos alertar que não podemos retornar a cometê-los.
É possível acreditar que se conseguirmos fazer essa passagem da encruzilhada crítica em outubro sem a ocorrência de um processo disruptivo profundo, a “porteira” para a estrada do crescimento econômico estará aberta. E o que mais o Brasil precisa, e falamos aqui essencialmente da economia como carro-chefe, é sim de um movimento “disruptivo” que destrave as expectativas econômicas. Sem esse “destravamento” dificilmente o país avançará em outras frentes. Vale acreditar e apostar.
*O autor é economista