BRASÍLIA, DF - Os Correios pediram formalmente a garantia soberana a um novo empréstimo de R$ 7 bilhões. A operação será contratada junto a quatro bancos privados (Banco ABC, Citibank, Deutsche Bank e J.P. Morgan) e terá custo de 114,26% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário).
A solicitação foi feita na última quinta-feira (3), dias após a empresa divulgar um prejuízo de R$ 2,4 bilhões no segundo trimestre, um resultado levemente melhor do que em igual período de 2025.
O pedido de garantia está sob análise do Tesouro Nacional. A concessão do aval significa que a União honrará os pagamentos em caso de inadimplência, o que contribui para tornar a operação atrativa aos bancos e reduzir os custos.
O novo crédito já era previsto dentro do plano de reestruturação da companhia, que precisou do socorro da União após enfrentar graves dificuldades financeiras e ficar sob risco de furo no caixa no ano passado. Além de ser fiador dos empréstimos, o governo ainda injetará na empresa R$ 6 bilhões em recursos públicos em 2027.
Procurado, os Correios afirmam que "as condições financeiras da operação ainda estão em tratativas com as instituições envolvidas e, neste momento, não podem ser detalhadas". "As informações oficiais serão divulgadas pela empresa oportunamente, após a conclusão das tratativas", diz a companhia. Os bancos ABC Brasil e o Deutsche Bank não quiseram comentar. Citibank e J.P. Morgan foram procurados na tarde desta quinta (10) por meio de suas assessorias, mas não se manifestaram até o momento.
A taxa de 114,26% do CDI equivale hoje a juros próximos a 16% do ano. É um custo inferior ao do primeiro empréstimo, no valor de R$ 12 bilhões, contratado em dezembro de 2025 a uma taxa de 115,13% do CDI.
O prazo do contrato será de 15 anos, dos quais os três primeiros serão de carência, sem cobrança de prestações. É o mesmo formato adotado no primeiro crédito. Nessa modalidade, o custo máximo da operação permitido pelo Tesouro seria de 120% do CDI.
O diagnóstico inicial da atual gestão dos Correios previa uma necessidade total de R$ 20 bilhões, mas a empresa informou ao Tesouro que esse valor caiu a R$ 19 bilhões (ou seja, redução de R$ 1 bilhão) devido à melhora na posição de caixa observada no fim do ano passado.
A companhia atribuiu esse desempenho à implementação de medidas destinadas ao reequilíbrio financeiro da empresa, como a renegociação e o parcelamento de dívidas acumuladas anteriormente, sobretudo com fornecedores.
Segundo documentos obtidos pela reportagem, o novo sindicato de bancos foi fechado ainda no mês de julho.
Como mostrou a reportagem, registros públicos já mostravam que, em 17 de junho, integrantes da área financeira dos Correios se reuniram com representantes do Deutsche Bank, Citibank, J.P. Morgan e ABC. O compromisso foi descrito como uma reunião entre "Correios e Sindicato do Bancos", cujo tema era a "revisão de algumas condicionantes apresentadas na proposta para empréstimo".
Antes disso, a empresa fez uma primeira rodada de negociações com Citibank, ABC e Banco Pine, mas as propostas ou não chegaram no valor almejado, ou foram descartadas devido a obstáculos na estrutura da operação.
A exemplo da primeira operação, o contrato terá cláusulas que obrigam a empresa a "envidar melhores esforços" para obter um aporte de ao menos R$ 6 bilhões da União até o fim do ano que vem. O valor já está reservado no Orçamento. Outra exigência é a quitação do contrato de crédito em caso de privatização da companhia no futuro, algo que já constava no primeiro contrato e costuma ser praxe em negociações do tipo.
Regras flexibilizadas
O Tesouro precisa analisar a capacidade de pagamento dos Correios para conceder ou não a garantia. No ano passado, o governo precisou flexibilizar regras para permitir à empresa pleitear os empréstimos com base nos resultados esperados de seu plano de reestruturação, já que, sem isso, ela não teria capacidade de pagamento suficiente para receber o aval.
Nesta etapa, a tendência é que os técnicos adotem cautela no rito de análise e tomem o tempo necessário para a avaliação das informações.
Após o primeiro crédito, o TCU (Tribunal de Contas da União) abriu um processo para apurar a eventual responsabilidade de gestores do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), inclusive servidores do Tesouro, por considerar que a análise de risco não foi feita com a profundidade requerida em casos dessa magnitude.
Como mostrou a Folha de S.Paulo, a garantia foi concedida apenas dois dias após o envio formal do contrato ao Tesouro Nacional. O TCU ressaltou que a versão definitiva do plano foi encaminhada apenas três dias antes da tomada de decisão. Para o tribunal, houve apenas verificação formal da existência de fluxos de caixa, e a rapidez da análise não foi condizente com sua complexidade.
Como o pagamento em dia das prestações dependerá do sucesso do plano, a corte de contas esperava que o governo fizesse uma análise mais detalhada de sua consistência, inclusive avaliando as premissas adotadas. Na visão da corte de contas, isso não aconteceu, o que levou a União a assumir um "risco fiscal relevante".