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Caso Master

'Quero tudo': grupo de Vorcaro acessou dados do MPF sobre Master e BRB

PF aponta que ex-banqueiro buscou informações sobre quem sobrevoou sua casa; relatório afirma que Sicário enviava documentos de processos sigilosos consultados por meio de contas de servidores

Publicado em 11 de Setembro de 2026 às 10:15

Agência FolhaPress

Publicado em 

11 set 2026 às 10:15
SÃO PAULO - Um grupo ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro obteve informações de processos sigilosos por meio de consultas registradas nos logins funcionais de servidores do MPF (Ministério Público Federal), segundo a Polícia Federal. Em um dos episódios descritos pelos investigadores, um documento atribuído ao órgão foi usado para obter informações sobre quem havia contratado um helicóptero que teria sobrevoado a casa do ex-banqueiro na Bahia.
As informações constam de relatório da PF enviado ao STF (Supremo Tribunal Federal). Mensagens reproduzidas no documento mostram que Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário e identificado como Felipe Mourão nas conversas, encaminhava a Vorcaro resultados de consultas a sistemas internos.
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master Reprodução/Redes sociais
De acordo com as investigações, Sicário integrava o núcleo conhecido como A Turma, suposta milícia que que servia para monitorar e intimidar pessoas consideradas adversárias ou ligadas às apurações sobre o banco. Mourão se enforcou na cela da Superintendência da PF de Minas Gerais em 4 de março, logo após ser preso durante operação, e teve a morte confirmada dois dias depois.
A PF relata que Sicário recebia R$ 1 milhão por mês pelo trabalho, que incluia acesso de informações sigilosas, coação e fabricação de dossiês.
Segundo a investigação, Mourão oferecia a Vorcaro a possibilidade de pesquisar pessoas e empresas e compartilhava documentos relativos a investigações, inclusive procedimentos protegidos por sigilo.
Em junho de 2024, ele enviou uma lista com nomes de pessoas e empresas e afirmou que Vorcaro poderia acrescentar outros "pra puxar os sigilosos", mostram mensagens que constam do relatório da PF. Em outra conversa, perguntou quais documentos o então banqueiro desejava receber. "Todos, obviamente", respondeu Vorcaro.
No dia seguinte, Mourão disse que poderia buscar outras informações porque estava com "acesso total e ilimitado" aos sistemas do MPF, mas afirmou não saber até quando as consultas estariam disponíveis.

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Parte dos documentos encaminhados estava registrada no login funcional de uma servidora do MPF. O relatório aponta a utilização recorrente dessa conta em consultas a processos, inclusive sigilosos.
A PF também identificou uma busca feita em 23 de julho de 2024 com o CPF de Vorcaro. A consulta localizou 15 procedimentos relacionados ao ex-banqueiro, dos quais 11 eram sigilosos, e estava registrada no login funcional de outro servidor.
Os investigadores afirmam que ainda é necessário esclarecer se as consultas foram realizadas pelos próprios servidores, se as credenciais foram cedidas ou se os acessos ocorreram sem o conhecimento deles. O relatório não atribui participação consciente aos titulares das contas. No caso de um deles, o relatório levanta suspeita de tentativa de ocultar a identidade do servidor e diz que chamou a atenção o fato de o nome do responsável pela consulta aparecer apenas na segunda página do documento.
Segundo o relatório, em julho de 2025 Mourão teria compartilhado nova consulta feita nos sistemas do MPF utilizando as palavras "BRB AND MASTER". De acordo com a investigação, Vorcaro responde de imediato: "Quero tudo. Atenção total". Em seguida, Mourão responde: "Sim! Então vou mandar puxar geral. Ok".
O episódio do helicóptero ocorreu em janeiro de 2025. No dia 13 daquele mês, Vorcaro enviou a Mourão uma imagem da aeronave e afirmou que ela havia sobrevoado sua casa na Bahia durante 40 minutos na sexta-feira anterior, dia 10.
"Fazendo todo perímetro", escreveu o banqueiro, que disse pretender apresentar uma queixa formal à polícia.
Mourão respondeu que seria necessário descobrir quem havia alugado o helicóptero e quem estava a bordo, segundo a investigação. "E pedir para a turma ir em cima", acrescentou.
Às 14h41 do mesmo dia, Mourão encaminhou um arquivo e escreveu: "Ofício está pronto para encaminhar mediante sua autorização".
Com brasão e identificação do MPF, o documento era classificado como "URGENTE/SIGILOSO" e dirigido a uma empresa de serviços aéreos.
O pedido abrangia a identificação do contratante, os itinerários, os horários de decolagem e pouso e a lista de passageiros, se disponível. Solicitava ainda que o contratante não fosse informado, sob a justificativa de que o sigilo seria necessário ao êxito das investigações.
O documento não tinha assinatura digital nem manuscrita. Para a PF, a ausência causa estranheza, especialmente porque o ofício estava classificado como urgente e sigiloso.
Em 16 de janeiro, Mourão encaminhou a Vorcaro uma resposta atribuída à empresa de serviços aéreos. O texto citava o número do ofício e informava que a requisição havia sido recebida no dia 14.
A empresa descrevia um primeiro voo destinado à verificação de equipamentos, sem passageiros, e informava o contratante e os itinerários de outro voo. Depois de encaminhar a resposta, Mourão perguntou a Vorcaro se seria necessário consultar os nomes dos passageiros.
Para a PF, a resposta da empresa indica que o ofício chegou a ser enviado. As páginas analisadas, porém, não apresentam confirmação do MPF sobre a autenticidade da requisição nem mostram autorização expressa de Vorcaro para que Mourão a encaminhasse.
Na conclusão do relatório, a PF afirma que o grupo ligado ao ex-banqueiro acessava de forma recorrente e irregular procedimentos sigilosos em andamento no MPF e em outros órgãos. Segundo os investigadores, as informações eram obtidas por meio de logins funcionais de terceiros, extração de documentos e consultas não autorizadas a sistemas internos.
A publicação dos documentos foi determinada por pelo ministro André Mendonça a pedido de Edson Fachin, presidente do STF, em meio à grave crise institucional na Corte. Mendonça retirou o sigilo de 14 procedimentos, além do principal, que deu origem aos demais.

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