E a crônica de um absurdo anunciado se cumpriu. Apenas nove dias após Valci Ferreira entrar com pedido de aposentadoria, o benefício foi concedido. Os trâmites são bem distintos, é verdade, mas a celeridade da aprovação contrasta, de forma gritante, com os 11 anos que o conselheiro está afastado do Tribunal de Contas do Estado, sem conclusão do processo na Justiça.
Contrasta também com os mais de dois anos que se passaram desde que uma sentença condenatória determinou a perda definitiva do cargo. Mas, como o caso se arrasta no STJ devido a recursos, o político julgado pelos crimes de lavagem de dinheiro e peculato, em prisão domiciliar, vai poder curtir a aposentadoria. Os vencimentos atuais de Valci são de R$ 35,4 mil por mês.
São essas e outras situações, tristemente comuns no Brasil, que transformam certas categorias do funcionalismo em “príncipes da República”, como tachou o líder político Gerson Camata, em sua última entrevista, publicada postumamente por este jornal.
Nos últimos 11 anos, o salário de Ferreira continuou a cair em sua conta todos os meses, normalmente. Enquanto isso, o órgão, ou melhor, os contribuintes capixabas, também pagaram os rendimentos de conselheiros substitutos. Não há nada ilegal aqui, é bom registrar. Mas é duro aceitar que os protocolos formais permitam situações como essa. A lentidão da Justiça abre brechas para a impunidade.
Para a massa de assalariados do país, que enfrenta a quase certeza de ter que trabalhar mais tempo para que o regime da Previdência seja sustentável – sem falar nos milhões de desempregados que não conseguem colocação no mercado –, financiar a aposentadoria de um político condenado em segunda instância é um acinte. Acintoso também, aliás, é o próprio valor do benefício. Em um momento de arrocho fiscal, em que se clama por respeito ao dinheiro público, R$ 35,4 mil extrapolam o limite do bom senso.