A onda de ataques promovida por facções criminosas no Ceará tem sido a primeira prova de fogo do governo Bolsonaro na segurança, setor crítico do país para o qual dedicou suas promessas mais populares e, na mesma medida, controversas, como facilitar a posse de armas. Na sexta-feira passada, terceiro dia de episódios violentos, o ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sérgio Moro, após o que pode ter parecido certa hesitação, autorizou o envio de 300 homens da Força Nacional, a pedido do governador do Estado, o petista Camilo Santana. A situação, fora de controle, demandava de fato a colaboração federal, algo que o Espírito Santo viveu na pele com a greve da PM, há quase dois anos.
Como presidente, Bolsonaro poderia ter evitado politização da decisão. Após Moro ter comunicado a autorização, o novo presidente tratou de elogiar a conduta do ex-juiz. “Ele foi muito hábil, rápido e eficaz, para atender inclusive um Estado cujo governador reeleito é de uma posição radical à nossa. Nós jamais faremos oposição ao povo de qualquer Estado”, ressaltou Bolsonaro, desnecessariamente. Afinal, é uma imposição patente de seu cargo não colocar rusgas partidárias ou ideológicas acima das necessidades da população, acuada pela ação organizada de verdadeiros profissionais do crime.
E é justamente com isso que Bolsonaro deve se preocupar. No início do ano passado, o Ceará também sofria com esse terror. É urgente acabar com o poder das facções que, dentro dos presídios, conseguem articular ataques com tanto força de desestabilização social. Sérgio Moro, alçado ao cargo por sua atuação no combate à corrupção, terá um desafio sem precedentes na segurança pública. É possível que as ações orquestradas no Ceará sejam um recado nada amistoso às novas autoridades, mas não são uma novidade.
Cabe ao Estado brasileiro neutralizar a ação desses grupos, inseridos na cadeia do tráfico internacional de drogas e armas. Sem uma rede de inteligência dotada de recursos humanos e tecnológicos, as autoridades de segurança pública sempre estarão um passo atrás do crime organizado. Não basta pôr fim às crises pontuais, como a atual do Ceará, mas impedir que se espalhem como epidemia pelo país.