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Opinião da GAZETA

Bolsonaro faz barulho sobre golpe para preencher vazio do governo

Ao sobrepor afinidades pessoais a fatos, Bolsonaro tenta reescrever o passado. Nada mais impróprio para um presidente

Publicado em 26 de Março de 2019 às 19:57

Públicado em 

26 mar 2019 às 19:57

Colunista

Crédito: Divulgação
Eleito democraticamente pelo voto direto de mais de 57 milhões de brasileiros,  o presidente Jair Bolsonaro orientou as Forças Armadas a realizar as “comemorações devidas” ao Golpe Militar de 1964, no próximo domingo. A ditadura que ele manda festejar é a mesma que, durante os 21 anos em que esteve no poder, fechou o Congresso Nacional, cassou o mandato de deputados, torturou, matou e – veja a ironia – impediu as eleições diretas para presidente da República. Trata-se de um período incontestavelmente sombrio da história do país, seja pelo viés político, seja pelo econômico. Ao sobrepor afinidades pessoais a fatos, Bolsonaro tenta reescrever o passado. Nada mais impróprio para a maior liderança política da nação.
As convicções do pesselista sobre o regime militar são sabidas. O Brasil e o mundo assistiram atônitos, por diversas vezes, às loas de Bolsonaro ao torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel que comandava os porões do DOI-Codi, de onde muitos presos políticos não saíram vivos. Foi saudado como herói. No dia 31 de março do ano passado, deu um exemplo do que considera “comemorações devidas”: estourou um rojão em frente ao Ministério da Defesa, com uma faixa de agradecimento aos militares por ter dado “liberdade” ao Brasil. A diferença, agora, é que tal postura não é mais lida como bravata de um político em campanha. Tem o peso do Estado sobre seus ombros.
O Brasil é, dos países da América Latina, aquele que pior lidou com sua história e sepultou a ditadura militar em cova rasa – a metáfora dolorida, que lembra as vítimas do regime, é proposital. Na vizinha Argentina, membros da repressão foram julgados e condenados, enquanto o Brasil concedeu anistia àqueles que matavam em nome da ideologia. Do Chile, outro exemplo. Tão logo Bolsonaro tirou os pés de Santiago, no último sábado (23), o presidente do país, Sebastián Piñera,  fez questão de se afastar das pérolas do capitão da reserva sobre o tema, “tremendamente infelizes”. Nenhuma autoridade desses países seria capaz, como o foi Bolsonaro, de escarnecer dos familiares que buscavam pelos restos mortais dos desaparecidos no regime dizendo que “quem procura osso é cachorro”.
Mas Bolsonaro não desfere esses petardos sem coro. Parte considerável de seu eleitorado subscreve e aplaude, transpondo o medo da ameaça comunista de outrora para o ódio pelos partidos de esquerda inflado pela polarização política dos dias atuais. Nem de um lado nem de outro do muro, porém, é sensato justificar regimes que profanaram direitos caros como a democracia, a liberdade, a vida. Esse lobby da caserna promovido por Bolsonaro é moralmente reprovável e soa como barulho para preencher o vazio de seu governo, que patina diante do único projeto de relevo até aqui, a reforma da Previdência. Mas, para um presidente que pergunta “o que é articulação”, a sombra de um Congresso fechado não deve mesmo assustar.

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