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Opinião da Gazeta

Incompetente para testar Covid, Brasil não deve melhorar na hora de vacinar

País, que é um dos que menos diagnostica a doença, tem quase sete milhões de exames sob risco de perder a validade e parar na lata de lixo. Risco é que falta de planejamento do governo se estenda ao programa de imunização

Publicado em 24 de Novembro de 2020 às 10:36

Públicado em 

24 nov 2020 às 10:36

Colunista

Teste para detectar o coronavírus
Teste para detectar o coronavírus é crucial para traçar estratégias Crédito: Itamar Crispim/Fiocruz
Milhões de testes diagnósticos para o novo coronavírus que jazem em um galpão do governo federal e correm o risco de perder a validade e parar na lata de lixo. O presidente da República, no entanto, repete estratégia adotada diversas vezes nesta pandemia para se esquivar de responsabilidades. Após jogar no colo de governadores e prefeitos a tarefa de impor regras sanitárias e de isolamento e culpá-los por quebrar a economia, Jair Bolsonaro agora empurra para Estados e municípios a tarefa de dar explicações sobre exames represados.
Na narrativa de Bolsonaro, todo o material foi enviado para Estados e municípios, como escreveu em uma rede social na segunda-feira (23). Mas registros do próprio Ministério da Saúde contam outra história. Reportagem do Estadão baseada em dados da pasta mostrou que 7,15 milhões de testes RT-PCR adquiridos pelo governo estão estocados em um armazém em Guarulhos. Desse total, 96% perdem o prazo de validade nos próximos meses, entre dezembro deste ano e janeiro de 2021. O restante vence em março. Até hoje, o Brasil aplicou cinco milhões de exames. Ou seja, o número de testes encalhados é maior do que os de realizados pelo país desde o início da pandemia. Se não forem utilizados a tempo, serão R$ 290 milhões desperdiçados.
O Ministério da Saúde afirma que vai checar com os fabricantes se é possível estender a validade do produto. Mesmo que ganhe algum tempo, de nada vai adiantar descarregar milhões de testes nas mãos de governadores e prefeitos. Secretarias estaduais e municipais de Saúde não possuem estrutura operacional para processar ou mesmo estocar grandes quantidades do material. Além disso, alegam que não conseguiram usar todos os testes distribuídos até o momento porque receberam kits incompletos do governo federal. Faltam reagentes, tubos de laboratório e cotonetes de coletar amostras, por exemplo.
A falta de planejamento é cristalina e representa não apenas dinheiro público jogado fora, mas uma falha que pode custar vidas. Mais precisos para detectar a doença, os exames RT-PCR são cruciais para medir o avanço da pandemia em cada região e, a partir dos resultados, elaborar planos de contingenciamento. Apesar do mantra de especialistas para “testar, testar, testar”, o Brasil erra brutalmente nesse quesito. É o terceiro país em número de casos no mundo, mas ocupa a 103º posição no ranking de diagnósticos por milhão de habitantes. De acordo com o professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) Daniel Lahr, em entrevista ao G1, a amostragem é tão pífia que “pode ser basicamente ignorada”. Tateando no escuro, prefeitos e governadores têm se apoiado em outros indicadores, como taxa de ocupação de UTIs, para traçar rumos.
A propagada experiência em logística de Eduardo Pazuello, para justificar a entrada de um general do Exército no Ministério da Saúde, não mostrou a que veio. Mesmo com milhões de testes em estoque, o Brasil diminuiu o total de exames enviados a Estados e municípios. A queda entre maio e em setembro foi de assombrosos 68%. Por outro lado, o país bateu recorde histórico na distribuição de cloroquina, medicamento comprovadamente ineficaz contra o Sars-Cov-2. Entre março e setembro deste ano, o Ministério da Saúde repassou mais de sete milhões de comprimidos do remédio às secretarias estaduais de Saúde, quase o dobro do que foi distribuído nos anos de 2018 e 2019 juntos.
Enquanto o governo federal bate cabeça, o Brasil volta a assistir ao aumento do número de casos. E os sinais dados pelo Planalto até agora é de que há um sério risco de que o apagão logístico estenda-se à vacinação, diante da ausência até o momento de plano de imunização. Cada vacina, a depender de fatores como temperatura necessária para estoque e número de doses exigida, demanda estratégias diferentes, que terão que ser replicadas em todo o território nacional. A título de exemplo, os Estados Unidos já definiram grupos prioritários e etapas da imunização, que envolve dois compostos. O Reino Unido fechou acordos com seis farmacêuticas. O Ministério da Saúde não pode seguir a toada de deixar tudo a cargo de Estados e municípios e lavar as mãos. Está na hora de Pazuello fazer valer suas credencias de especialista em logística.

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