A reforma da Previdência não consegue escapar nem mesmo do fogo amigo, como se viu nesta semana na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara.
A oposição parlamentar ao projeto protestou, abusou das chicanas, mas não precisou de tanto esforço assim para minar a votação do parecer por contar com aliados improváveis: foram justamente os partidos mais alinhados ao presidente Jair Bolsonaro que se empenharam em empurrá-la para a próxima semana, na terça-feira. De grão em grão, a cada empecilho, a mudança da qual o Brasil tanto depende fica mais distante. Mas tanta procrastinação tem um preço alto, pago por cada cidadão.
Confirma-se que ainda não há uma base governista consolidada, com uma linha de frente que compre a briga pela agilidade da tramitação. Pelo contrário, como mostram as palavras do próprio líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir (GO): “A bancada do PSL, hoje, é uma das mais infiéis ao partido. A gente sabe que boa parte deles (dos deputados) sofre pressão das redes sociais”. Ou seja, estão reféns de certo clamor que faz questão de ignorar que o colapso das contas públicas é inevitável caso se permaneça na inércia.
Nessa levada, a proposta continua correndo o risco de ser desidratada, mesmo após o relator, Delegado Marcelo Freitas (PSL-MG), ter recomendado na semana passada a aprovação total da PEC. Cabe à CCJ a análise sobre a proposta, se ela fere ou não princípios constitucionais.
A nova derrota do governo provoca mais atrasos nas próximas etapas da tramitação. É como se não houvesse ainda 13 milhões de desempregados no país, um abismo social cada vez mais intransponível, com uma economia que não consegue deslanchar por não encontrar um ambiente fértil. A confiança não é restabelecida, o país permanece nesse transe imposto pelo desajuste fiscal. Pior: analistas do mercado financeiro pela sétima vez consecutiva reduziram as projeções de crescimento da economia para este ano, a expectativa agora está em 1,95%. O fantasma da recessão já assombra novamente. A alienação dos parlamentares é inconcebível, a responsabilidade está no colo de cada um deles.
O Brasil carece de investimentos para voltar a crescer. É hora de o Congresso passar por cima das diferenças em nome do interesse coletivo, comprometendo-se em um pacto nacional pró-reforma. Só a racionalização previdenciária, da forma que está sendo proposta, vai estabilizar o país.