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Opinião da Gazeta

Tragédias das chuvas são os terremotos do Brasil

Em 2022 o "epicentro" foi Petrópolis (RJ),  neste ano é São Sebastião (SP).  Como no caso dos terremotos,  o que pode reduzir o impacto das chuvas são as ações contingenciais

Publicado em 23 de Fevereiro de 2023 às 00:30

Públicado em 

23 fev 2023 às 00:30

Colunista

Chuva
Área atingida por deslizamento de terra após desastre provocado por chuvas em São Sebastião (SP) Crédito: Prefeitura de São Sebastião/Divulgação
O terremoto de magnitude 7,8 que atingiu a Turquia e a Síria no último dia 6 deixou um rastro impressionante de destruição e mortes; foram mais de 47 mil vidas perdidas. Tragédias naturais como essa, apesar de ocorrerem em zonas sísmicas ativas do planeta, ainda são imprevisíveis e potencializadas  pelo nível baixo de segurança das construções. Países que desenvolvem soluções de engenharia para enfrentar os tremores e as aplicam em casas, edifícios e pontes tendem a registrar menos mortes mesmo com abalos de maior intensidade. O Japão é o exemplo clássico de como organização e planos contingenciais salvam vidas.
O Brasil não possui atividade sísmica capaz de arrasar cidades, o que nos torna espectadores sem referenciais locais dessas catástrofes que atingem tantas nações. O Brasil é uma bênção tectônica. Mas não está livre das catástrofes naturais. 
Os temporais devastadores encontram na falta de planejamento urbano o cenário ideal para as tragédias de verão. Em 2022, o epicentro foi Petrópolis, no Rio de Janeiro, com mais de 230 mortos. Minas e Bahia sofreram com as chuvas no fim de 2021.  Em 2023, a região de São Sebastião, em São Paulo, é castigada pelas chuvas que, até o momento, provocaram a morte de 48 pessoas. O retrospecto inclui o Espírito Santo, sendo a tragédia de Iconha, em 2020, um dos exemplos mais vívidos de uma cidade completamente arrasada por inundações e desabamentos.
O roteiro de São Sebastião tem ainda alguns elementos que reforçam como o país segue despreparado para encarar eventos climáticos extremos. Moradores da Vila Sahy, área mais afetada pelas chuvas, relatam que não houve alerta da Defesa Civil,  enquanto o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) afirma que o governo estadual e a Prefeitura de São Sebastião foram avisados com dois dias de antecedência sobre os riscos.
As ocupações desordenadas estão no cerne do problema: quando chove em demasia, fora dos padrões esperados, a infraestrutura urbana deficiente entra em colapso. As catástrofes provocadas pelas chuvas poucas vezes escapam dessa regra. Reportagem do Globo mostra, por meio de imagens captadas nos últimos 35 anos, a ocupação irregular nas encostas do Sahy. Em 2018, eram 648 imóveis e 779 famílias na área de perigo.
O Ministério Público de São Paulo anunciou a apuração de eventuais responsabilidades pela tragédia. É preciso que haja resultados efetivos e punição, mas o mais provável é que seja mais um episódio de descaso lacrado no baú do esquecimento.
As ameaças climáticas impõem uma agenda de planejamento urbano para o país, mas os gestores públicos teimam em empurrá-la com a barriga. Os investimentos precisam ser robustos em uma reformulação urbana nos cenários mais graves. Não sofremos com as imprevisibilidades dos terremotos, que causam tragédias humanitárias superlativas, mas quando chega o verão nunca se sabe qual região do país será a próxima vítima da precariedade das cidades, sobretudo nas áreas mais pobres, e da falta de planos de contingência. 

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