“O que ela [a vida] quer da gente é coragem”, ensina o mestre Guimarães Rosa, em “Grande sertão: veredas”. Nascido da pena do mineiro de Cordisburgo, o romance, para muitos o maior da literatura brasileira, foi lançado no ano de 1956. Só dois anos antes, um outro mineiro, de Araçuaí (município situado justamente no sertão das Gerais), tirava a sua carteira da OAB, para exercício legal da advocacia, e iniciava uma trajetória em que se destacou por colocar em prática o ensinamento do conterrâneo: uma vida e uma carreira marcadas, precisamente, pela coragem em tudo o que fazia.
Agesandro da Costa Pereira também se fez mestre em seu ofício: por meio de sua vida e obra, deu lições de cidadania, de espírito cívico, de senso de dever funcional e institucional, de compromisso com a democracia e com o interesse coletivo, de consciência e de coragem cívica na luta pelo que é certo e pelo que é justo. Sai da vida para se tornar, instantaneamente, um vulto da luta contra a violência e o crime organizado; um vulto da defesa da ética, do Estado de Direito e dos direitos humanos no Espírito Santo.
A primeira lição que ele deixa é vocacional: escolher, como atividade profissional, não só a área de que se gosta, mas também aquela na qual se acredita. Agesandro foi não só um amante do Direito como, antes de tudo, um entusiasta do seu poder de proporcionar Justiça a quem dela necessita. Honrou, com seu trabalho, o exercício da advocacia, tanto na sala de aula como na militância profissional. Ainda nos primeiros anos de prática advocatícia, prestou concurso para a magistratura e foi aprovado. Poucos meses depois de assumir o cargo de juiz, exonerou-se. “Minha função é advogar”, explicava aos curiosos, sempre que lhe inquiriam os motivos.
Outra lição deixada pelo mestre está na luta intransigente contra a corrupção e contra o crime organizado, que por muito tempo andaram de mãos dadas e se apoderaram das instituições e poderes constitucionais do Estado do Espírito Santo, destacadamente entre os anos de 1990 e início dos anos 2000 – período em que Agesandro presidiu a OAB-ES (no total, foram oito mandatos à frente da entidade). Nessa condição, no momento em que o Estado se encontrava prostrado, entregue ao crime e sem poder de reação, Agesandro, indomável e inconformável, tomou uma medida ousada que representou o primeiro sopro de mudança: cofundou e coordenou o Fórum Reage ES, resistindo, inabalavelmente, a ameaças e atentados. E por que isso?
De novo, a lição da coragem, como o próprio explicou em agosto de 2015, numa das últimas entrevistas dadas por ele a A GAZETA, – por acaso a este colunista, atuando então como repórter: “O advogado também precisa ter coragem cívica. Se, ante a primeira ameaça, fecha o escritório e parte, não tem condições de exercer o ministério da advocacia. Naquele momento terrível do nosso Estado, nós da OAB-ES enfrentamos as mais diversas pressões, até atentados”.
Como escreveu Elio Gaspari na quarta-feira passada, “a Ordem foi uma sacrossanta instituição, presidida no século passado por Raymundo Faoro”. Aqui no Estado, essa “sacrossanta instituição” teve à frente homem do mesmo quilate.
E homens públicos como Agesandro fazem uma falta danada nestes tempos estranhos que vivemos no Brasil de 2018. A última lição de Agesandro recobra sobeja importância neste Brasil em que tanta gente está distorcendo conceitos fundamentais e voltando a celebrar a violência e o desmonte do Estado de Direito: sua luta incondicional em defesa dos direitos humanos e contra a violência de Estado como quer que ela se manifeste. Será o tema de uma próxima coluna.
Acordo “velado”
Não chamem o governador Paulo Hartung e o ex-governador Renato Casagrande para o mesmo velório. No de Agesandro, ontem, o ex-governador chegou por volta das 12h, horário em que estava prevista a passagem do governador. Casagrande chegou, cumprimentou advogados, secretários de Estado e a família de Agesandro, e saiu. Só depois, por volta das 13h30, é que Hartung chegou ao velório.
De novo, aliás...
O acordo velado dos dois de não se cruzarem em cemitérios também prevaleceu no sepultamento de Elcio Alvares, no ano passado.
Contra a ditadura
Além da atuação durante a crise do crime organizado no Estado, Agesandro teve participação intensa durante a campanha pela Lei da Anistia e das Diretas Já, durante a ditadura militar. Nessa época, ele atuou como secretário-geral da OAB-ES.
Lições para a juventude
Em palestras para jovens, era recorrente a pergunta se ele achava a legislação brasileira muito frouxa e se era preciso endurecer as penas. Para tais ocasiões, ele tinha uma frase célebre. “A lei é boa, se for bem aplicada.” Outro bordão de Agesandro, professor da Ufes por muitos anos, era “vocês são o sal da terra”, direcionado sempre para os mais jovens.
A Palavra nos processos
Católico, ele gostava de citar trechos da Bíblia nos processos em que atuava.
Mestre disciplinador
Professor de Direito da Ufes, era conhecido pela rigidez: fechava a porta às 7h da manhã. Quem chegava atrasado não assistia à aula.