Desde muito cedo, Dagmar Faísas já sabia qual caminho queria seguir: o da educação. Indígena de Itaúnas, no litoral de Conceição da Barra, no Norte do Espírito Santo, ela cresceu alimentando o sonho de ser professora, um desejo que nunca se apagou, mesmo diante das dificuldades encontradas ao longo da trajetória.
Apaixonada pelos estudos, sempre enxergou no conhecimento uma ferramenta de transformação. Em 2014, foi aprovada no curso de Letras da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), em Vitória, mas as dificuldades financeiras impediram a mudança para a Capital. O obstáculo, no entanto, não foi suficiente para fazê-la desistir.
No ano seguinte, Dagmar conquistou o segundo lugar no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), onde cursou Mecânica, área que sempre despertou a curiosidade desde o período da infância.
Determinada a realizar o sonho de ser professora, ingressou posteriormente no curso de Física da Ufes, no campus de São Mateus.
Caminho até o diploma
Para chegar ao diploma, o amor pela educação nunca caminhou sozinho. Ao longo da graduação, Dagmar fez questão de levar consigo aquilo que a motiva: sua cultura, sua história e os saberes do seu povo.
Essa vivência ganhou forma também no campo acadêmico e se transformou no tema do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Com o foco em Astronomia Indígena, o estudo foi o primeiro do curso de Física da Ufes de São Mateus a abordar essa temática, reafirmando que os saberes tradicionais e o conhecimento científico podem dialogar e se complementar.
Foi como a gente pode entender que a astronomia vai além do conhecimento científico. E por que os saberes dos povos indígenas não podem ser essa ciência?!
Eu quis trazer esse questionamento para mostrar que a ciência pode ser vista por outros olhares. No meu caso, pelo ponto de vista dos povos indígenas.
A trajetória de Dagmar na universidade também reflete um avanço, ainda que tímido, na inclusão de povos originários no ensino superior. Segundo dados da Pró-Reitoria de Graduação (Prograd), a Ufes contabiliza atualmente 98 universitários que se identificam como indígenas e possuem matrícula ativa na instituição, o que reforça a importância das políticas de acesso e permanência para ampliar a representatividade indígena no ambiente acadêmico.
Representatividade
Ancestralidade, representatividade e muito orgulho. Esses são os sentimentos que marcam a conquista de Dagmar ao receber o diploma universitário.
O momento da formatura foi marcado por um forte simbolismo. Ao escolher usar um cocar durante a cerimônia, ela transformou a colação de grau em um ato de afirmação e resistência, dando visibilidade à sua identidade, reafirmando suas raízes e dando voz ao seu povo em um espaço historicamente pouco ocupado por indígenas.
Para mostrar a minha representatividade, para mostrar o meu povo, para mostrar que é uma conquista minha e da minha família. É para mostrar também que a gente pode fazer tudo o que quiser, inclusive Física
O gesto foi muito além do significado pessoal, se tornou inspirador, abrindo caminhos para que outras crianças e jovens indígenas acreditem que a universidade também é um espaço que lhes pertence.
Ao unir educação, ciência e saberes tradicionais, Dagmar não apenas realizou um sonho de infância, ela fortaleceu identidades, ampliou horizontes e provou que o conhecimento tem muitas formas, origens e vozes.
Atualização
2026-02-01T11:44:00.000Z
Após a publicação, a Associação Indígena da Aldeia Jacó Pataxó emitiu nota afirmando que Dagmar não é reconhecida como pertecente àquela comunidade. No entanto, no dia 2 de fevereiro, o cacique enviou uma declaração que reconhece a jovem como Jacó Pataxó. A versão anterior da reportagem também indicava que Dagmar seria a primeira da aldeia a ter ensino superior, mas a associação reforçou que outros indígenas da Jacó Pataxó possuem graduações em cursos de Matemática, Engenharia Mecânica, Pedagogia e Administração.