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Fim de ano

Entre a ceia, o bingo e o amigo-X: como cada geração vive o Natal

Tradições, memórias e novas dinâmicas mostram como a comemoração natalina se transforma com o passar do tempo

Publicado em 24 de Dezembro de 2025 às 08:38

Nicoly Reis

Publicado em 

24 dez 2025 às 08:38
Com o passar do tempo, algumas tradições se mantêm, enquanto novas formas de celebrar o Natal ganham espaço.
Com o passar do tempo, algumas tradições se mantêm, enquanto novas formas de celebrar o Natal ganham espaço. Crédito: Canva
O modo de celebrar o Natal mudou ao longo do tempo. A festa, antes concentrada na virada do dia 24 para o dia 25, hoje se espalha por todo o mês de dezembro. Encontros antecipados, brincadeiras reinventadas e novas dinâmicas convivem com tradições mantidas por décadas, revelando como cada geração celebra a data.
Esse cenário acompanha transformações sociais e tecnológicas que ajudam a definir os comportamentos geracionais. Se antes a família extensa se reunia em uma única casa, hoje as celebrações se fragmentam entre núcleos menores, grupos de amigos e encontros temáticos. Nesta reportagem, A Gazeta ouviu representantes da Geração X, Millennials e Geração Z para entender como o Natal foi se transformando ao longo do tempo.
Os dados reforçam essa tendência de mudança, segundo a pesquisa “Consumidor do Futuro 2026: o fim da romantização do consumo”, da WGSN, os consumidores passaram a priorizar experiências em vez de objetos, principalmente no Brasil (52%). Isso tem impacto direto nas festividades, que deixam de girar em torno de presentes e passam a valorizar encontros, momentos partilhados e atividades que criam memória. É nesse cenário que começam a surgir histórias que atravessam as gerações.

Geração X: o Natal das grandes famílias

Para quem cresceu nos anos 70 e 80, como Genilce Murari, 52 anos, o Natal tinha a dimensão de um grande reencontro. Era a época em que seus tios e primos que viviam no Rio de Janeiro ou em Minas Gerais retornavam para a casa dos avós, transformando a data num dos raros momentos de reunião completa da família. “Era uma farra boa”, lembra. A casa da avó, ponto de partida de todas as celebrações, era palco de amigo-secreto, almoço coletivo, brincadeiras entre primos e longas conversas que varavam a noite.
Mesmo sem telefone ou redes sociais, a organização funcionava: uma tia distribuía tarefas, cada família levava um prato e o amigo-secreto era tradição garantida. A simplicidade marcava a celebração — dos presentes para todas as crianças à preparação coletiva da ceia.
Com o passar dos anos, a estrutura familiar mudou. Os primos formaram novos núcleos, as agendas deixaram de coincidir e o Natal deixou de reunir todos no mesmo dia. Hoje, Genilce celebra com a família mais próxima e, quando possível, com irmãos e amigos. As brincadeiras também se adaptaram: bingo, sorteios e trocas substituíram o antigo amigo-secreto. Ainda assim, o sentido de partilha permanece como valor central da data.
Apesar das mudanças, o valor simbólico permanece. Genilce faz questão de mostrar à filha a importância de estar em família, mantendo viva a ideia de que o Natal é tempo de agradecimento, partilha e memória. Entre rituais adaptados e os impossíveis de reproduzir — como os tios chegando com “sacos de presentes” para todas as crianças —, a Geração X encontra o equilíbrio entre nostalgia e a prática de um modo próprio de celebrar a data.

Geração Millennials: tradição como herança

Na família de Jaquelane Ramos, 38 anos, o Natal atravessa gerações como um ritual cuidadosamente preservado. A tradição começou com o avô, católico e rigoroso nos símbolos da data, e segue viva há mais de cinco décadas.
As celebrações, antes concentradas na noite do dia 24, migraram para o almoço do dia 25 à medida que a família cresceu. Cada convidado leva um prato, e as brincadeiras — sobretudo o bingo — tornaram-se parte indispensável do encontro. “O bingo é de lei”, resume Jaquelane, que, durante muitos anos, foi responsável por conduzir as dinâmicas e hoje vê a função passar para a filha de uma prima, simbolizando mais um rito de passagem dentro da família.
As tias, hoje com mais de 80 anos, representam a ligação direta ao passado. Jaquelane revela o receio de que a tradição possa enfraquecer com o tempo, mas ao observar o entusiasmo da nova geração, especialmente da sobrinha Júlia Cristina Indami — que já assume parte das brincadeiras —, sente esperança de continuidade.
Para ela, o Natal é “aconchego”, uma oportunidade anual de ter toda a família reunida, inclusive aqueles que vivem no Rio de Janeiro e em Brasília. É também a materialização da herança católica deixada pelo avô: o presépio, a decoração montada apenas após o Dia de Finados, o respeito ao Dia de Reis. 

Geração Z: o Natal como experiência

Para a Geração Z, o Natal deixou de ser um evento fixo e passou a ser uma experiência diluída ao longo do mês. Evellyn Souza descreve a data como uma sequência de encontros que celebram não apenas o Natal, mas o encerramento de um ciclo.
Dentro da família, a lógica também passa pela adaptação. Para evitar gastos elevados, o tradicional amigo-secreto dá lugar a versões criativas do chamado “amigo-X”, sempre com regras novas. Neste ano, por exemplo, a brincadeira inclui um limite de valor e um dado com comandos que determinam trocas de embrulho e mudanças inesperadas. A inspiração vem quase sempre da internet, onde vídeos com ideias inusitadas viralizam a cada dezembro.
Sem ligação religiosa, Evellyn vê o Natal como um momento de balanço emocional. “É um fechamento de ciclo”, explica. Essa lógica se reflete também nas celebrações mais intimistas, como o Natal temático do clube do livro do qual faz parte. Criado em 2024, o grupo adotou a prática de celebrar datas comemorativas com leituras específicas, decoração temática e dinâmicas coletivas — como o “amigo-livro”, inspirado no amigo-urso.
Desde a pandemia, essas práticas se tornaram ainda mais frequentes. Evellyn observa que, a partir de 2021, todos os seus grupos de amigos passaram a criar rituais próprios de fim de ano. A experiência compartilhada do isolamento reforçou o desejo de proximidade e transformou o Natal em um espaço de reconexão emocional. Para ela, o foco não está mais nos objetos, mas sim no investimento em experiências.

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