O Sítio Histórico e Arqueológico de São José do Queimado, na Serra, recebeu o reconhecimento como Patrimônio Cultural do Brasil. A decisão foi tomada durante o 111º Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, realizado quarta-feira (26), no auditório do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em Brasília (DF). A área tombada abrange as ruínas da igreja, o cemitério local e a paisagem composta por árvores de médio e grande portes no entorno.
A justificativa do tombamento baseou-se em três pilares: relevância histórica e arqueológica do sítio; importância de visibilidade nacional da Revolta do Queimado como episódio fundamental da resistência negra no país; e a necessidade de articulação entre políticas públicas, especialmente aquelas voltadas à promoção da igualdade racial.
O presidente do Iphan, Leandro Grass, ressaltou o compromisso da gestão com o reconhecimento do patrimônio de matriz africana no país. “Já são diversos bens reconhecidos, e hoje o Espírito Santo reforça seu papel e seu lugar na história do Brasil”, disse ele.
O processo de tombamento envolveu 25 rodas de conversa da equipe da pesquisa junto com a comunidade realizadas ao longo de 2020. Nesses momentos, trataram sobre religiosidade, o papel do poder público, os empreendedores do campo do comércio e turismo, educação, pesquisa e documentação.
O sítio já era protegido em nível estadual desde 1992, e o município o incluiu como bem de interesse de preservação em 1990. Desde então, ações vêm sendo desenvolvidas para garantir seu acautelamento, ou seja, medidas de preservação anteriores ao agora consolidado tombamento federal.
A insurreição de 1849
Durante a missa inaugural da Igreja de São José do Queimado, cujo nome é uma referência às frequentes queimadas de cana-de-açúcar da região, em 19 de março de 1849, um grupo de escravizados exigiu a carta de alforria. Liderada por Elisiário, Chico Prego e João da Viúva, a revolta teria sido motivada pela promessa não cumprida feita pelo pároco Gregório José Maria de Bene, que garantiria liberdade àqueles que ajudassem na construção do templo dedicado a São José.
Os escravizados organizaram um levante que reuniu pessoas de diferentes regiões da província capixaba. A repressão foi violenta, seus principais líderes foram condenados à morte, enquanto outros fugiram e formaram quilombos em áreas como Roda d’Água e Retiro, nos atuais municípios de Cariacica e Santa Leopoldina, respectivamente.
Devido à força da insurreição, foram necessários reforços militares do Rio de Janeiro, além de tropas capixabas para contê-la. Os rebelados foram presos e julgados, sendo cinco deles condenados à morte. Elisiário escapou da cadeia, refugiou-se nas matas do Morro do Mestre Álvaro e nunca mais foi recapturado. Chico Prego foi capturado e enforcado em 11 de janeiro de 1850.