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Visão de especialistas

Reforma tributária: ES deve manter arrecadação e faz plano para reter investimentos

Para especialistas que participaram de evento na Rede Gazeta, Estado passará por desafios, mas terá muitas oportunidades de atrair novos negócios
Leticia Orlandi

Publicado em 

27 ago 2025 às 17:07

Publicado em 27 de Agosto de 2025 às 20:07

Evento Diálogos
Evento Diálogos: Reforma Tributária foi uma realização de A Gazeta com apoio da CBN Crédito: Carlos Alberto Silva
A partir do ano que vem, começam a ser dados os primeiros passos para a implementação da reforma tributária. O fim da cobrança dos tributos na origem (onde se vende o produto) para a taxação no destino da mercadoria é um dos principais impactos do novo sistema para o Espírito Santo, um Estado com grande produção industrial, mas com pequeno mercado consumidor. O fim dos incentivos fiscais é outro ponto de preocupação para a economia capixaba.
Mesmo diante dessas ameaças, especialistas acreditam que nem o governo estadual, nem os municípios vão perder arrecadação. O principal dever de casa do Espírito Santo será reter investimentos e empresas, evitando a migração de empreendimentos para outras regiões do país.
Os desafios e oportunidades trazidos pelo novo regime de cobrança de impostos foram temas do evento Diálogos: Reforma Tributária, realizado pela Rede Gazeta nesta quarta-feira (27). O debate contou com a participação dos secretários de Estado da Fazenda e de Desenvolvimento, Benício Costa e Rogério Salume; o consultor do FMI, Paulo Ricardo Cardoso; e o vice-governador Ricardo Ferraço.
Eles explicaram que entre 2026 e 2032 saem de cena gradativamente o ICMS e ISS (estadual e municipal) e os impostos federais PIS, Cofins e IPI para ser aplicado o Imposto Sobre Valor Agregado (IVA), que é chamado também de IVA Dual por ser composto do IBS e CBS, o primeiro destinado aos cofres dos entes subnacionais e o segundo para a União.
Apesar da preocupação de gestores públicos, principalmente dos municípios, e de empresas, o secretário de Estado da Fazenda, Benício Costa, apresentou uma perspectiva otimista. A confiança se baseia em três pilares principais: o aumento da receita após o fim dos benefícios fiscais, a existência de um fundo de compensação federal e a possibilidade de ajuste das alíquotas estaduais. "Perda de arrecadação o Estado não vai ter. Isso eu garanto", afirma.
Costa explicou que, atualmente, os benefícios fiscais no Espírito Santo somam R$ 14 bilhões, que representa uma renúncia superior a 50% do valor que o Estado deveria arrecadar de ICMS. Em 2024, a receita com esse imposto foi de R$ 12,55 bilhões, segundo o Painel de Controle do Tribunal de Contas do Espírito Santo (TCE-ES).
A perspectiva é que, com o término desses benefícios a partir de 2032, esse montante retorne aos cofres estaduais, caso as empresas optem por permanecer em território capixaba.
O secretário ainda lembra da existência de um fundo federal destinado a ressarcir estados e municípios por eventuais perdas arrecadatórias decorrentes da redução de benefícios fiscais durante um longo período de transição de 50 anos.

Alíquota pode ser reduzida

Benício Costa também destaca que a alíquota de referência da reforma tributária, que está na expectativa de ficar em torno de 26,5% a 28%, não é imutável para os Estados. Ele esclareceu que a soma das alíquotas da União, estados e municípios comporá o valor final, e o Espírito Santo poderá ajustar a sua alíquota para menos, inclusive ficando abaixo dos atuais 17% do ICMS, se a necessidade arrecadatória for superada.
"Acho que vai ser um ganho para a sociedade [reforma tributária] e para as administrações públicas. Vai simplificar, trazer para a gente uma perspectiva de futuro melhor para o nosso país. Vários estudiosos dizem que vai ter aumento do PIB, o que por si só também vai ajudar a arrecadação a aumentar. Então, são vários fatores que indicam que a nossa arrecadação não vai sofrer tanto no futuro", detalha Costa.
Evento Diálogos
Benício Costa no evento Diálogos - Reforma Tributária na Rede Gazeta Crédito: Carlos Alberto Silva

Carga tributária

O professor Paulo Ricardo Cardoso, especialista em tributação, apresentou uma análise sobre os impactos e a expectativa da reforma tributária, destacando a simplificação do sistema como um de seus pilares fundamentais. Ele descreveu o cenário atual como um "manicômio tributário", com uma legislação complexa que exige das empresas uma estrutura absurda para conformidade, exemplificando que existem mais de 810 artigos de instrução normativa federal e 10 mil atos tributários anuais nos municípios.
Segundo Cardoso, a reforma visa a reduzir sensivelmente o "Custo Brasil", diminuindo a necessidade de grandes equipes dedicadas a questões fiscais e contábeis, o que resultará em ganhos de eficiência para empresas de todos os portes.
Sobre a previsão da carga tributária, Cardoso avalia que a alíquota de referência, projetada entre 26,5% e 28%, ficou elevada devido às diversas exceções e reduções incluídas no texto da reforma, como a isenção de 100% para a cesta básica ampliada e reduções para serviços profissionais como engenharia e advocacia.
"A ideia é que o novo sistema seja neutro. Claro que alguns setores econômicos, algumas atividades, vão pagar mais do que vem pagando hoje. Vou dar um exemplo. A prestação de serviços paga hoje ISS de 5%. Com a incorporação do ISS junto ao ICMS para criar o IBS, essa empresa vai passar a pagar de 26% a 28% de impostos", detalha, acrescentando que os negócios hoje inscritos no Simples poderão se manter no sistema simplificado caso desejam.

Previsão de cashback

O professor Paulo Ricardo lembrou também sobre a previsão do cashback na reforma tributária. O conceito consiste na devolução do tributo incidente sobre determinados serviços para populações vulneráveis cadastradas em programas sociais do governo. Como exemplo, ele citou o recebimento de volta do valor do tributo após a família de baixa renda pagar a conta de luz. Na prática, o contribuinte, ao informar o CPF no momento de uma compra, receberá de volta no mínimo 20% do IVA aplicado .

Ações para garantir competitividade

O secretário de Estado de Desenvolvimento, Rogério Salume, pontua que, diante das mudanças impostas pela reforma, é preciso ter uma abordagem criativa e organizada para transformar o cenário em oportunidades. Ele frisa que o papel do governo é preparar, ajudar e pavimentar o ambiente para que empreendedores continuem gerando riqueza e as indústrias cresçam, garantindo a confiança no Espírito Santo como um local atrativo.
Para Salume, as empresas devem utilizar o período de transição da reforma para agregar valor, diferenciar produtos, aumentar a produtividade e fortalecer marcas e lembrou que o Estado está investindo em infraestrutura e logística, como o Parklog no Norte do Estado e o projeto do Porto Central na Região Sul. A duplicação da BR 262, com R$ 2,3 bilhões alocados, e o avanço da BR 101 visam a melhorar a mobilidade e a capacidade de atração do Estado.
Ele lembrou da criação da agência InvestES para atrair mais empresas para o Espírito Santo para atender principalmente as indústrias que precisam importar de outros estados ou países insumos para a fabricação. A ideia é também receber novos negócios em tecnologia e biotecnologia. O turismo é outro potencial que deve ser explorado para mostrar as belezas capixabas para o mundo, participando de feiras internacionais e buscando vender esse potencial para fora.

"ES está preparado para a reforma"

Na abertura do evento, o vice-governador Ricardo Ferraço destacou que o Estado está plenamente preparado para os desafios da reforma tributária, destacando a solidez econômica capixaba e uma série de investimentos estratégicos em infraestrutura logística e verticalização industrial, importantes para garantir a competitividade do Espírito Santo ao longo da implementação da reforma.
"Estamos preparados para a reforma tributária. Não estamos assustados, porque estamos fazendo o dever de casa. Os números e os indicadores do nosso Estado nos levam a essa conclusão. Somos um Estado com dívida líquida negativa. Temos recorrência de 13 anos de nota A no ranking da Secretaria do Tesouro Nacional. Em 2024, nós fizemos o maior investimento da história do nosso Estado com recursos próprios", aponta.
Além dos investimentos econômicos, o vice-governador elucida que a formação do capital humano é vista como essencial ao expor que o Estado tem o maior número de escolas técnicas federais por município no Brasil. Também revela que essa característica tem relação com as 213 escolas de ensino médio em tempo integral em funcionamento. A meta é chegar a 300 unidades, sendo muitas delas profissionalizantes. 
Para Ferraço, a combinação da força de trabalho, da capacidade empreendedora dos capixabas e de um planejamento e organização rigorosos posiciona o Espírito Santo como um dos estados mais preparados da federação para enfrentar a reforma tributária e manter seu nível de desenvolvimento.
Diálogos
Evento Diálogos - Reforma Tributária na Rede Gazeta Crédito: Carlos Alberto Silva
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