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Após tarifaço

TVV registra queda de 40% nas exportações de rochas ornamentais

Retração ganhou força após a mudança tarifária imposta pelos Estados Unidos, alterando a curva histórica de embarques

Publicado em 08 de Dezembro de 2025 às 19:06

Leticia Orlandi

Publicado em 

08 dez 2025 às 19:06
Movimentação portuária no Terminal de Vila Velha, TVV
Mais de 95% do volume exportado de rochas ornamentais pelo Espírito Santo passa pelo Terminal de Vila Velha Crédito: Fernando Madeira
O tarifaço imposto pelo presidente dos Estados UnidosDonald Trump, aos produtos brasileiros já provocou redução de 40% na média mensal de exportação de rochas ornamentais pelo Terminal de Vila Velha (TVV), principal ponto de saída desse tipo de produto no Espírito Santo.
Entre agosto e setembro, primeiros meses depois do tarifaço, a média mensal passou a ficar 40% abaixo em relação ao mesmo período do ano passado, segundo o TVV. O Espírito Santo é responsável por cerca de 82% das exportações brasileiras de rochas para o mercado norte-americano, segundo dados da Associação Brasileira de Rochas Naturais (Centrorochas).
No Terminal Portuário de Vila Velha (TVV), o impacto aparece tanto no acumulado do ano quanto na média mensal, após o anúncio das medidas. Atualmente, o TVV conta com forte atuação em operações de rochas ornamentais, especialmente granito.
Segundo dados do terminal, cerca de 48% de toda a exportação movimentada pelo terminal para o mercado estadunidense é composta por rochas ornamentais. Mais de 95% do volume exportado desse tipo de carga pelo Espírito Santo passa pelo TVV.
De acordo com Gustavo Paixão, diretor de Terminais da Log-In Logística Integrada, o recuo do granito ficou nítido na comparação anual e se intensificou no segundo semestre.
“Se analisarmos o acumulado até setembro, estamos 22% abaixo na movimentação de rochas. Mas, entre agosto e setembro, depois do tarifaço, a média mensal ficou 40% abaixo do que vínhamos fazendo no mesmo período do ano anterior”, afirma.
Paixão acrescenta, ainda, que o terminal registrou meses melhores no início de 2025, mas a retração ganhou força após a mudança tarifária, alterando a curva histórica de embarques.
Apesar de o governo norte-americano ter revisto parte das medidas e incluído o café na lista de redução das tarifas em novembro, o efeito sobre o Espírito Santo é residual do ponto de vista portuário.
Segundo Paixão, o café representa uma parcela pequena da exportação movimentada pelo terminal e não figura entre as principais cargas com destino aos EUA. “O café tem peso pequeno aqui no terminal e aparece mais distribuído em outros mercados. A dinâmica atual do TVV está muito mais ligada às rochas”, explica.
Com o objetivo de contornar os impactos da retração, o terminal tem acelerado a diversificação de exportações, com avanço de operações de carga geral, projetos especiais e granéis.
Além do efeito direto das tarifas, o terminal aponta que a classificação de parte das cargas ampliou o impacto inicial. Produtos como quartzito ficariam fora da tarifação formal, mas acabaram atingidos por serem registrados como granito.
“Houve uma distorção importante pois nem tudo é granito e nem tudo está sujeito à mesma tarifa. O setor começou um esforço de reclassificação. Isso não é rápido, mas já vemos sinais de ajuste”, diz Paixão.
Já o Centrorochas contabilizou uma redução menor nas exportações do Espírito Santo para os Estados Unidos desde o tarifaço. Desde agosto, a queda foi de 25% no volume de contêineres. 
Segundo Giovanni Francischetto, superintendente do Centrorochas, mesmo com o tarifaço, o setor registrou acumulado geral de 18,7% no país e 14,6% no Espírito Santo. 
Francischetto diz que 2025 tem sido o melhor ano, mesmo com tarifaço, superando 2021. Contudo, ele enfatiza que o resultado poderia ser muito maior sem o impacto das tarifas.
Embora as exportações acumuladas para os EUA tenham crescido 15,7% em valor, houve uma queda no volume. O aumento no valor se deve, primariamente, ao fato de que o quartzito tem o valor agregado muito mais alto do que mármore e granito.
Houve uma substituição no mercado, com o quartzito — material que permaneceu isento das tarifas — crescendo 39% nas exportações acumuladas para os EUA. Por outro lado, o mármore e o granito, mais afetados, sofreram reduções expressivas: as perdas foram de 17% para o granito e 16,5% para o mármore.

Abertura para novos negócios 

Mesmo com perda na principal carga de margem, a queda liberou capacidade operacional e abriu espaço para novos negócios. Paixão afirma que o TVV aproveitou a janela para fortalecer carga geral e projetos especiais, segmentos que haviam perdido presença em 2024 por conta da alta ocupação e do ciclo de retrofit.
“Com menos contêineres cheios, conseguimos abrir pátio e berço para outras operações. Voltamos a operar fortemente a carga geral e isso tem superado o que estava previsto inicialmente”, comenta.
A diversificação também inclui granéis e a possibilidade de operar navios sem guindaste de bordo, que passaram a ser atendidos com regularidade nos berços públicos da Autoridade Portuária, após os recentes investimentos em novos equipamentos.
Segundo Paixão, esse movimento reforça a estratégia de ampliar o portfólio de operações e aprimorar o perfil multipropósito do terminal e do Complexo Portuário de Vitória.
No comércio internacional, a avaliação do executivo é de que não há previsibilidade de reversão rápida do tarifaço. “A negociação com os EUA segue em curso, mas o segmento também está se movimentando para abrir novos destinos. O Oriente Médio entrou no radar como mercado com demanda, sendo ainda pouco explorado para as rochas brasileiras”, explica.
Nesse contexto, o TVV tem o importante papel de garantir infraestrutura e capacidade de resposta caso os volumes retornem, além de oferecer alternativas logísticas para novas cargas. “A negociação comercial permanece entre exportadores, entidades setoriais e compradores internacionais. Para o terminal, a diversificação iniciada em 2025 tende a continuar mesmo com eventual retomada do granito, como forma de reduzir exposição a choques externos e sustentar crescimento em segmentos menos concentrados”, observa o executivo.

Novos mercados no negócio de rochas

Em resposta à restrição no principal destino de exportação, o setor das rochas ornamentais acelerou a busca por novos mercados, uma estratégia que já estava em andamento. Enquanto os EUA continuaram sendo um mercado crucial, crescendo 15,7% no acumulado, outros países registraram picos de crescimento muito superiores:
  • Itália: 46,3%
  • China: 13,6%
  • Espanha: 80%
  • Austrália: 48%
  • Polônia: 52%
Francischetto detalhou que o Centrorochas intensificou o trabalho de diplomacia empresarial no Brasil e nos Estados Unidos, envolvendo órgãos governamentais, como o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e a vice-presidência, e entidades parceiras nos EUA. Recentemente, foi contratada uma consultoria especificamente para o setor, com o objetivo central de isentar todos os materiais.
"Estamos buscando diversificar outros mercados. Estamos trabalhando com orientação muito forte para ter uma base de distribuição coletiva no Oriente Médio. É um mercado muito grande e onde a nossa participação é pequena, porque a produção da Itália e Ásia abastece a região já que estão mais perto. É o mercado prioritário em que temos oportunidade de crescer", destaca.

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