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Sem indenização

Família de capixaba desaparecido em Brumadinho acumula dor e dívidas

Uberlândio Antônio da Silva, de 54 anos, está entre as 69 vítimas do rompimento de barragem que estão desaparecidas

Publicado em 10 de Abril de 2019 às 14:59

Barbara Oliveira

Publicado em 

10 abr 2019 às 14:59
Rosemar Pinheiro, 38, lamenta o desaparecimento do marido, o capixaba Uberlândio Antonio Silva, desaparecido na tragédia de Brumadinho, em Minas Crédito: Fernando Madeira | GZ
Revolta, saudade e dívidas. Muitas dívidas. Desde que perdeu o esposo, Uberlândio Antônio da Silva, de 54 anos — uma das 69 vítimas do rompimento da barragem de Brumadinho que ainda continuam desaparecidas, a vida de Rosemar Pinheiro, de 38 anos, ganhou capítulos até então inimagináveis. Era o companheiro que garantia o sustento da casa, administrava as finanças e assumia o papel de pai para os quatro filhos dela. A lama de rejeitos de minério levou tudo embora.
Desde então, as contas se acumulam e a família enfrenta problemas financeiros e psicológicos. Para não passar fome, Rosemar e os filhos chegaram a receber até doação de cesta básica. A família tem recebido da empresa em que Uberlândio trabalhava, uma prestadora de serviço da Vale, uma espécie de ajuda de custo mensal. O valor é inferior ao salário que o capixaba recebia, mas é a única renda que Rosemar possui. 
"As dívidas estão tudo acumuladas para eu pagar, dívidas muito altas. É R$ 7 mil em um banco e R$ 4 mil em outro. É complicado. Ele que pagava as contas, e isso tudo veio como um golpe na minha cabeça. Os meninos (filhos) choram dia e noite, e eu ainda não posso pagar um psicólogo para eles. Além de ter matado o meu marido, a Vale ainda me deixou nessa situação", lamenta.
OS R$ 100 MIL DE DOAÇÃO DA VALE PARA CADA FAMÍLIA
Com o rompimento da barragem prestes a completar três meses, Rosemar afirma não ter recebido os R$ 100 mil que a Vale prometeu pagar para os familiares das vítimas de Brumadinho. Segundo ela, a quantia foi entregue para outra mulher, com a qual Uberlândio teve uma filha fora do casamento. A Vale teria utilizado como critério o fato de o capixaba ter uma filha biológica, ainda que não convivesse com ela, e desconsiderado que o trabalhador vivia com Rosemar e os filhos dela há mais de uma década.
Uberlândio Antônio da Silva está entre os desaparecidos após o rompimento da barragem de brumadinho Crédito: Arquivo da família
"Quando ele veio morar comigo meu menor tinha 1 ano. Sou casada legalmente com ele, morou mais de 10 anos comigo. Meus filhos dependiam do meu marido. Era para ser R$ 50 mil para mim e R$ 50 mil para ela, já que ele tinha essa filha fora do casamento. Enquanto ela gasta o dinheiro do meu marido, eu estou aqui com as dívidas dele para pagar. As dívidas chegam aqui na minha casa, e só posso me livrar delas depois que a certidão de óbito sair. Só Deus sabe quando isso vai acontecer. Por causa dessa maldita Vale eu estou passando dificuldades", afirma.
ANGÚSTIA
Além dos problemas financeiros, Rosemar convive com a dor de ainda não ter o corpo do marido encontrado. Sem notícias, restou a ela consultar o site da Vale semanalmente, para checar se o nome do marido ainda se encontra na lista de desaparecidos.
Até agora a única coisa que eu estou recebendo da Vale é mais uma injustiça. Além de matar meu marido, não estão nem aí para mim e para minha família. Ninguém me dá uma satisfação, ninguém entra em contato comigo. Estou revoltada. Não encontraram o corpo dele e não me dão nem notícia. De dois em dois dias eu entro no site para ver se o nome dele aparece. Ainda está lá na lista de desaparecidos 
Rosemar Pinheiro
O QUE DIZ A VALE
Por meio de nota, a mineradora informou que a doação no valor de R$ 100 mil foi destinada à filha menor de idade de Uberlândio Antônio da Silva, por meio de sua responsável legal, seguindo os critérios de concessão estabelecidos. "O salário mensal dele está sendo pago à atual companheira, que também está recebendo atendimento psicossocial".
O ROMPIMENTO DA BARRAGEM
Crédito: Divulgação | Corpo de Bombeiros MG
A Barragem do Feijão, da Vale, em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, se rompeu em 25 de janeiro. O mar de lama destruiu casas da região do Córrego do Feijão e a área administrativa da companhia, inclusive o refeitório da empresa. O capixaba é um das vítimas que estavam no refeitório no momento da tragédia. 
Até o momento, mais de 200 pessoas morreram em decorrência do rompimento da barragem, e outras 69 ainda seguem desaparecidas. A lama também contaminou o Rio Paraopeba, um dos afluentes do Rio São Francisco.

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