Há exatamente um ano, uma cena chamou a atenção no Espírito Santo: um adolescente de 17 anos foi jogado da Segunda Ponte e morreu afogado. Três policiais militares envolvidos no caso foram presos e indiciados por homicídio qualificado. À espera do julgamento deles, a mãe de Kaylan Ladário dos Santos, Leicester Ladário, definiu esses meses com uma palavra: "Angustiante".
"Espero ansiosa para ver o julgamento, que ainda vai ter a data marcada, e para que eles sejam de fato condenados. O júri é composto por várias pessoas, fica difícil saber o que vai acontecer, o que eles vão entender, se vão de fato condenar eles", declarou Leicester.
Sei que nada vai trazer meu filho de volta, mas eu queria que isso tudo acabasse logo, que eles fossem condenados pelo que fizeram com meu filho. Sigo agarrada a Deus e pedindo para ele me dar forças
Segundo a Polícia Militar (PM), o cabo Franklin Castão Pereira e os soldados Luan Eduardo Pompermaier Silva e Leonardo Gonçalves Machado continuam presos no presídio militar do Quartel do Comando-Geral da corporação.
O caso
No dia 18 de fevereiro de 2025, Kaylan foi abordado no bairro Aparecida, em Cariacica, devido a um mandado de apreensão em aberto por envolvimento em um assalto ocorrido em 2023. Ele foi encaminhado à Delegacia Especializada do Adolescente em Conflito com a Lei (Deacle), onde foi constatado que o documento já estava vencido. O delegado orientou os policiais a levarem o adolescente de volta para casa. No trajeto, eles teriam desviado do caminho e, conforme investigação da Polícia Civil, Kaylan foi jogado da Segunda Ponte.
Imagens de uma câmera de segurança mostram a viatura parada na Segunda Ponte e um objeto sendo jogado no mar (veja acima). Na sequência, a câmera gira e, quando volta, a viatura já está saindo e algo se mexe na água. A movimentação seria Kaylan, que não sabia nadar, tentando se salvar. Os três policiais militares foram indiciados por homicídio qualificado, em razão da impossibilidade de defesa da vítima.
Depoimento dos PMs
No dia 14 de outubro, os três policiais prestaram depoimento sobre o caso. O cabo Castão descreveu a sequência dos fatos dizendo que a vítima se jogou da ponte. Ele alegou que só parou para colocar o jovem na parte traseira da viatura:
“Quando a viatura parou, o Kaylan abriu a maçaneta e desceu para a parte de trás da viatura. Foi nesse momento que eu desci. O primeiro militar que desce sou eu. Eu desci e fechei a porta dele. Como eu pisei em uma pedra, eu peguei a pedra e joguei fora. E é até o momento em que a mídia pega esse vídeo, diz que é uma pessoa sendo jogada, circula em vermelho. E isso foi uma pedra. Pedi calma a ele”, disse Castão.
Sobre Kaylan ter parado no mar, ele disse que o adolescente teria pulado: “Antes de tomar uma atitude mais drástica relacionada ao desespero dele no parapeito, ele pulou, foi isso o que aconteceu. Nesse momento, fui até o parapeito da ponte, olhei, me certifiquei que estava andando até a margem. Vi que estava em uma distância próxima à margem. Não acionei (o socorro) porque vi que ele estava nadando. Foi uma reação que tive, como vi ele nadando, para mim ele sairia dali”.
Os outros dois policiais falaram que Castão relatou, no dia do ocorrido, que Kaylan havia fugido, e não pulado. Luan ainda afirmou que o cabo, posteriormente , pediu para ele e Machado também falarem que o menino pulou para "dar mais coerência à versão dele". Porém, o soldado disse que os dois decidiram contar o que vivenciaram de fato. No dia, Leonardo chegou a descer da viatura para verificar por qual motivo o cabo estaria demorando a voltar para o carro após o veículo ser estacionado.
“Assim que cheguei e percebi o comportamento do Kaylan, o cabo Castão mandou eu me afastar e voltar para a viatura, que ele estaria verbalizando com o Kaylan. Voltei para a viatura e informei ao Pompermaier, logo depois o cabo Castão entrou na viatura e falou para tocar para o batalhão porque o Kaylan tinha fugido. Perguntei se iriam atrás dele, mas ele disse que não, porque Kaylan não devia nada e não queria entrar na viatura. Fomos questionando se não íamos voltar para procurar ele. Não ouvi nada (da conversa do cabo e do jovem) porque na ponte estava ventando muito e tinha uma obra por perto", descreveu Machado.
Já Luan, que dirigia o veículo, disse que entendeu que o pedido de parada era somente para colocar o jovem na parte traseira do automóvel. “Nesse momento eu estava passando pela Segunda Ponte e o cabo Castão mandou eu parar a viatura. Nesse contexto eu entendi que ele havia mandado eu parar a viatura para colocar ele no cofre. O Kaylan só estava um pouco agitado, tanto é que ele em momento nenhum desobedeceu.”
O cabo já respondeu por dois crimes ocorridos durante o trabalho e ainda responde a um outro processo, que está em andamento na Justiça.
A reportagem de A Gazeta tenta localizar a defesa dos envolvidos e disponibiliza este espaço para um posicionamento.