O fentanil e outros medicamentos de uso controlado desviados de hospitais por uma técnica de enfermagem de 31 anos, presa em Cariacica no dia 20 de julho, eram distribuídos para abastecer o tráfico de entorpecentes no Espírito Santo. A informação foi divulgada na tarde desta quarta-feira (29) pela Polícia Civil, que agora investiga se outras unidades de saúde também foram alvo de furto.
Além do fentanil, estão entre os medicamentos investigados substâncias como morfina, adrenalina e cetamina. Segundo a polícia, os fármacos eram desviados do ambiente hospitalar e alguns deles seriam utilizados para potencializar os efeitos de outras drogas. Um homem de 37 anos, apontado como um dos destinatários dos medicamentos, também foi preso em Vila Velha.
A técnica de enfermagem, que exerce a profissão há pelo menos seis anos, foi presa em casa, onde os policiais encontraram morfina e drogas, entre elas ecstasy. Na delegacia, ela negou ter desviado medicamentos. Sobre a morfina, afirmou que teria esquecido o produto no jaleco, mas, segundo a investigação, não comunicou o ocorrido ao hospital.
De acordo com a delegada Fernanda Prado, adjunta do Departamento Especializado em Narcóticos (Denarc), a ausência de comunicação reforça a suspeita de que a investigada teria se apropriado intencionalmente do medicamento.
“Quanto ao ecstasy, ela confirmou que a droga se destinava à comercialização. Disse que precisava de dinheiro e, por isso, pretendia vender o entorpecente encontrado na residência”, acrescentou a delegada.
A investigada não tinha passagens anteriores pela polícia e é companheira de um homem que já está no sistema prisional por crimes não relacionados ao desvio de medicamentos. Na residência dela, também foram encontrados "catuques", como são chamados bilhetes enviados a presos. O conteúdo do material não foi divulgado.
A Polícia Civil investiga os estabelecimentos de saúde onde a técnica de enfermagem trabalhou para identificar de onde os medicamentos eram desviados. Segundo a polícia, os produtos seriam retirados do ambiente hospitalar conforme a demanda do homem de 37 anos preso em Vila Velha.
“Com ele, encontramos morfina e uma arma de fogo de uso permitido, sem autorização legal. Ele foi autuado em flagrante pela posse ilegal da arma e também por tráfico de drogas, em razão dos elementos de informação já reunidos durante a investigação e porque não conseguiu justificar a posse da morfina em casa.”
Apesar de ser um medicamento utilizado na área da saúde, a morfina, bem como o fentanil, é de uso controlado. No tráfico, as substâncias muitas vezes são misturadas a outras drogas para potencializar seus efeitos.
Um segundo homem, apontado como intermediário do esquema, já havia sido preso em flagrante por tráfico de drogas, em novembro do ano passado. Era ele quem recebia as substâncias da técnica de enfermagem e revendia a outros traficantes, inclusive ao que foi preso em Vila Velha.
Além de identificar de onde os medicamentos foram desviados, a próxima fase das investigações buscará identificar outros destinatários e apurar se a técnica agia sozinha ou contava com a ajuda de outras pessoas.
Entenda
Para que servem os medicamentos desviados de hospital
O fentanil é um medicamento potente, utilizado em anestesias. No entanto, recentemente, passou a ser consumido de forma ilícita. Por ser 100 vezes mais forte do que a morfina, apenas 2mg da substância já são capazes de provocar a morte por overdose em poucos minutos.
A cetamina também é utilizada como anestésico em procedimentos cirúrgicos ou com fins diagnósticos em humanos e animais, geralmente associada a outros fármacos. Se utilizada fora do ambiente hospitalar e sem supervisão médica, pode causar depressão respiratória e até matar.
Já a morfina é um analgésico opióide, formalmente indicado para o controle de dores intensas e incapacitantes, seja em ambiente hospitalar ou em tratamentos crônicos ou paliativos. O uso em excesso pode causar tontura, confusão mental e dependência, entre outros riscos.
A adrenalina, por sua vez, é um hormônio natural liberado pelas glândulas suprarrenais em situações de estresse ou perigo. Como medicamento, é utilizada, muitas vezes, em tratamentos emergenciais de crises graves de alergia.
Fonte: Médico Drauzio Varella