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Memória

Greve da PM: ES registrou 41 pessoas assassinadas em apenas um dia

Dados exclusivos obtidos por A Gazeta mostram que mais da metade dos 219 mortos durante os 22 dias de motim, em 2017, não respondia por nenhum crime; julgamento dos PMs começou nesta quarta-feira (10)
Vinicius Zagoto

Publicado em 

10 set 2025 às 18:39

Publicado em 10 de Setembro de 2025 às 18:39

Data: 07/02/2017 - ES - Vitória - Greve da PM - Militares do Exército Brasileiro intervém durante protesto de manifestantes em frente a quartel da Polícia Militar na Avenida Maruípe - Editoria: Polícia - Foto: Guilherme Ferrari - NA
Exército age em protesto de manifestantes em frente a quartel, durante greve da PM em 2017 Crédito: Guilherme Ferrari/ Arquivo AG
O julgamento de cerca de dois mil policiais militares por crime de motim, iniciado nesta quarta-feira (10), fez o Espírito Santo trazer de volta à tona um período conturbado na segurança pública capixaba: durante os 22 de greve da PM, em 2017, 219 pessoas foram assassinadas no Estado, 41 delas em apenas um dia. A crise provocou ainda paralisação do serviço de transporte público, fechamento de escolas, aumento nos roubos de veículos e saques em estabelecimentos comerciais.
O dia mais sangrento da greve foi 6 de fevereiro, uma segunda-feira, dois dias após a deflagração do movimento. Mais da metade das vítimas nunca tinha sido condenada por praticar crimes, de acordo com dados obtidos com exclusividade por A Gazeta após três meses de investigação, no ano em que aconteceu a greve. 
Dos 192 mortos durante a greve identificados pela reportagem, 94 tinham alguma condenação ou respondiam na Justiça por algum crime quando morreram. Esse número equivale a 48,9% das pessoas que perderam a vida de forma violenta durante os 22 dias em que miliatares cruzaram os braços. Os outros 51,1% não tinham processos na Justiça.
É o caso de Luciano da Conceição Lima, de 21 anos, de Vitória. Ele e um amigo foram assassinados no bairro Conquista, no dia 5 de fevereiro de 2017. A mãe de Luciano, Luziene de Lourdes Oliveira da Conceição, de 40 anos, ouvida pela reportagem seis meses após o fim da greve, disse que acordou naquele dia com um mau pressentimento. 
"Eu não sei o que aconteceu porque os dois eram pessoas boas. Os dois morreram inocentes, isso eu tenho certeza”, desabafou, à época. Veja abaixo relato dos pais de Luciano, gravado em 2017:

Estado de sítio

Durante a paralisação da PM, o Espírito Santo esteve sitiado. Por todo o Estado, os capixabas ficaram reféns da insegurança. Nas portas dos batalhões, esposas e amigos de policiais militares bloqueavam a saída das viaturas e dos agentes.
Sem policiamento nas ruas, o massacre teve início. As 219 mortes foram causadas por homicídio, latrocínio, bala perdida e confrontos com a polícia. 
No Departamento Médico Legal (DML) de Vitória, as 15 geladeiras se encheram rapidamente e os corpos começaram a se empilhar pelo chão. Foi preciso uma força-tarefa de peritos para identificar todos eles. Nos cemitérios, os coveiros relataram enterros sucessivos. Teve família que precisou cavar o buraco no chão para conseguir enterrar seus parentes.
A quantidade de vítimas era tão grande, que os policiais da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) não estavam tendo condições de ir em todos os locais de crime. Segundo relatado pelos agentes na época, a ordem dada a eles era priorizar os homicídios, em detrimento das ocorrências de tentativa realizadas na região.
Lojas foram invadidas e saqueadas durante greve da Polícia Militar no Espírito Santo
Loja Ricardo Eletro, em Goiabeiras, é saqueada durante greve da PM no Estado Crédito: Ricardo Medeiros
Houve ainda aumento expressivo no número de carros roubados. Apenas nos três primeiros dias foram 170 veículos retirados de seus donos, o que levou a um grande número de ocorrências e delegacias lotadas, com pessoas aguardando horas em filas por atendimento.
Com a falta de policiamento nas ruas, estabelecimentos comerciais, como lojas e supermercados, foram saqueados. Na tentativa de evitar invasões, muitos comerciantes construíram barricadas com madeira nas portas.
No total, o prejuízo à economia capixaba foi de R$ 2,1 bilhões, considerando as perdas na indústria, comércio e setor de serviços.
Para tentar manter restabelecer a segurança, o governo estadual pediu ajuda do Exército e da Força Nacional. A chamada “Operação Capixaba” começou no dia 6 de fevereiro. Ao todo, 3.169 homens das Forças Armadas, sendo 2.637 do Exército, 382 da Marinha e 150 da Força Aérea, além de 287 militares da Força Nacional patrulharam esquinas, rodovias e coletivos.
Houve ainda o registro de ônibus do Sistema Transcol incendiados, o que levou à suspensão do serviço por quatro dias. Os coletivos só voltaram a circular após soldados do Exército autuarem na segurança nos terminais. 

O que aponta a denúncia do Ministério Público

Cerca de dois mil praças combatentes da Polícia Militar do Espírito Santo (PMES) — com patentes entre soldados a subtenentes — enfrentam julgamento na Vara da Auditoria Militar (AJMES), no Fórum Criminal de Vitória. Eles foram denunciados por crime de motim praticados durante a greve de 2017.
Ministério Público do Espírito Santo (MPES) aponta que, de forma livre e consciente, os agentes se reuniram, agindo contra a ordem expressa do comandante-geral da Polícia Militar do Estado do Espírito Santo, bem como de seus comandantes de unidades e negaram cumprimento à cessação do movimento grevista. E elenca alguns pontos:
  • Participação na greve - “Os denunciados aderiram ao movimento grevista, cada um ao seu modo em local, dia e horário diferentes, mas todos interrompendo a prestação do serviço de policiamento bem como realizando conduta vedada ao policial militar.” 
  • Ordem para cessar movimento - Relata que no dia 7 de fevereiro de 2017 um ofício do comandante determinou “a imediata cessação do movimento grevista” e que fossem para as ruas com viaturas ou em policiamento a pé.
  • Descumprimento de ordem - É dito que as ordens não foram cumpridas: “Inúmeros policiais militares deixaram de cumprir seu dever em exercer policiamento e aderiram ao movimento grevista em flagrante desrespeito aos princípios da hierarquia e disciplina, bem como a vedação constitucional do direito de greve.”

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