Quase seis meses após os constantes tiroteios que aterrorizaram o Morro da Piedade, em Vitória, o clima ainda é de medo de voltar para casa. Dezenas de famílias que foram expulsas da região por traficantes ainda não têm planos de retornar para a comunidade.
No dia 26 de dezembro, uma base fixa da Polícia Militar foi inaugurada na região, mas nem mesmo a presença da polícia foi suficiente para trazer de volta os moradores.
Um levantamento realizado pelo Instituto Raízes aponta que 32 casas foram abandonadas e mais de 180 pessoas deixaram o bairro em 2018. A maioria saiu entre março e julho, quando os conflitos entre criminosos se intensificaram. Destas, apenas oito famílias– cerca de 30 pessoas – tiveram coragem de retornar.
“As pessoas continuam com medo. As casas estão fechadas, o morro está vazio. Quem saiu agora tem a preocupação de como manter um aluguel. Muitos fizeram dívidas”, relatou o Instituto, em nota divulgada no final do ano. A área conhecida como “Seu Queiroz”, no alto do morro, foi a que sofreu o maior impacto, com 90% dos moradores deixando as residências.
E o medo instaurado na Piedade se estendeu à comunidade vizinha, o Morro do Moscoso. Em junho, famílias da comunidade também saíram às pressas da região e ainda não retornaram.
“Eu não tenho coragem de voltar. Criminosos invadiram minha casa atrás de rivais e por pouco minha neta não foi morta. É triste, porque cresci no Moscoso. Sinto falta dos vizinhos e do meu lugar. Fiz dívidas para pagar aluguel. Mas chegamos em um ponto que até inocentes precisam temer represálias”, lamentou um ex-morador da região, de 75 anos, que preferiu não se identificar.
PROCESSO
Em agosto, a Defensoria Pública entrou com uma ação na Justiça contra a Prefeitura de Vitória e o governo do Estado. Representando 24 famílias, a defensoria pediu aluguel social para as vítimas.
No dia 28 de novembro, o juiz da 3ª Vara deferiu parcialmente o pedido da liminar. Ao Estado, houve a sentença de avaliação psicossocial dos moradores e encaminhamento a programas assistenciais.
Ao município, a garantia de vagas em escolas próximas à Piedade. Mas outros pedidos, como o aluguel social, não foram aceitos.
Procuradas, a Prefeitura de Vitória e a Procuradoria Geral do Estado informaram que foram notificada da liminar e que, dentro do prazo legal, irão se manifestar.
AS DISPUTAS
O Morro da Piedade enfrentou uma intensa disputa de criminosos pelo tráfico local, deixando um rastro de sangue e medo durante 2018.
A guerra resultou na morte de quatro pessoas, inclusive dos irmãos Ruan e Damião Reis que, segundo a polícia, não tinham relação com a criminalidade.
Em julho, após a morte de Wallace de Jesus Santtana, considerado o braço direito do traficante João Paulo Ferreira Dias, o “dono do morro”, moradores foram ameaçados pelos traficantes que cometeram o assassinato.
Os bandidos chegaram a dar um prazo de uma semana para os moradores saírem do morro.
Na época, a reportagem flagrou dezenas de famílias amedrontadas que aproveitaram a presença da polícia para fazerem as mudanças às pressas.
APOSTA NO ESTADO PRESENTE PARA COMBATER CRIMINALIDADE
Para tentar solucionar os problemas enfrentados pelos moradores da Piedade, o novo secretário de Estado da Segurança Pública, Roberto Sá, afirmou que aposta no retorno do programa Estado Presente.
“Com o Estado Presente, as ações de proteção social serão fortalecidas para que aquela comunidade possa ter uma qualidade de vida melhor”, afirmou o secretário, em nota.
Roberto Sá reforçou que a polícia realizou a prisão dos criminosos que eram responsáveis por levar o terror à região. “A Polícia Civil efetuou a prisão dos criminosos que ameaçavam esses moradores e a PM colocou uma base de onde o patrulhamento é irradiado permanentemente. O comandante do destacamento tem a missão de promover a proximidade com a comunidade para, a qualquer momento, poder intervir”, disse.
A base fixa da Polícia Militar foi inaugurada no dia 26 de dezembro e funciona 24 horas por dia. O prédio possui um mirante e conta com a presença de 15 militares diariamente. Os policiais contam com câmeras e drones para monitorar o local. “É fundamental que essa comunidade confie no policial e que denuncie criminosos através do telefone 181”.
TERROR
Terror. Esse é o sentimento de um idoso após ser obrigado a abandonar a própria casa por causa das ameaças de traficantes no Morro do Moscoso, vizinho da Piedade.
Por que saiu do morro?
Por medo, terror. Tenho 75 anos. Nasci e cresci no Moscoso e nunca vi uma situação dessa, com criminosos ameaçando até quem é trabalhador.
O senhor foi ameaçado?
No dia da morte dos irmãos Ruan e Damião, na Piedade, criminosos armados e encapuzados invadiram o Moscoso também. Eles invadiram a casa de moradores. Procuravam pelos traficantes. Olharam todos os cômodos da casa. Por sorte, só tinha mulheres. Se algum dos meus netos homens estivesse lá, acabaria morto. Como não acharam quem queriam, sequestraram minha neta como fizeram com Ruan, na Piedade.
Fizeram algo com ela?
Desceram o morro apontando as armas pra ela. Uns diziam para matar, outros diziam que era melhor liberá-la. A comunidade assistiu e não pôde fazer nada. Na parte baixa do morro, decidiram soltá-la.
Pretende voltar?
Não. Estou com dívidas pelo aluguel, mas ficou o trauma. Tenho medo que matem minha família porque hoje em dia até inocente é assassinado.