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Reportagem especial

Por que os bailes funks tradicionais de clubes acabaram no ES?

Pessoas ligadas ao funk no Estado explicam como os bailes tradicionais foram acabando e deram lugar a outros tipos de festas

Publicado em 03 de Abril de 2019 às 11:45

Publicado em

03 abr 2019 às 11:45
É som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado
Amilcka e Chocolate
A letra de Amilcka e Chocolate resume de maneira simples o funk. O som envolvente, que saiu da periferia, pelo menos de maneira legalizada, 'desceu' para os bairros nobres da Grande Vitória. Assim, os bailes tradicionais em clubes foram perdendo frequentadores, as boates encheram e as festas clandestinas - feitas em qualquer lugar e conhecidas como Mandela - viraram a opção mais barata para o funkeiro se divertir no Espírito Santo.
Segundo um funkeiro antigo, quando os bailes acabaram em Vitória, os Mandelas começaram a crescer, por volta de 2013.
Baile funk na sede do Rio Branco na Ilha de Santa Maria Crédito: Edson Chagas/ 17/04/2004
"O Mandela não deixa de ser um baile funk, mas ele não é um baile de comunidade. Acabou o baile funk, então a galera começou a curtir na rua. Os Mandelas utilizam mais os podcats (conteúdo em áudio disponibilizado em plataformas na web). É uma nova geração que não conheceu o baile funk da antiga", afirma.
A migração de bailes, como o Náutico Brasil e o Rio Branco, em Vitória, e o Cobilândia, em Vila Velha, para áreas nobres é vista com maus olhos pelo frequentador. 
O baile do Mandela é revolta, porque foram tirados os nossos bailes para serem colocados na Praia do Canto, pra fazer filho de burguês sorrir. A nossa cultura foi vendida, aí acabaram os bailes funks
Funkeiro
O preço é outra reclamação. "Pra curtir um baile onde a classe média curte, tem que pagar uns R$ 40, R$ 60 pau. O baile funk era coisa de R$ 10, onde o pobre, o trabalhador podia pagar. A nossa cultura foi transportada para outro local. Coisa que funcionava na comunidade e não pode mais. Lá eles recebem todo mundo. A gente, aqui, recebe a polícia, tiro de bala de borracha".
Baile funk em uma boate de Vitória Crédito: Carlos Alberto da Silva - 13/09/2005
Além dos bailes tradicionais, ele explica que o ritmo passou por festas de micareta funk, onde os responsáveis não se preocupavam com a segurança dos frequentadores. Segundo o funkeiro, foram tantas confusões que os bailes foram fechando.
"Aí os grandes empresários entraram. Os que já faziam festas para as áreas nobres viram que os playboys curtiam funk. Então, quem quiser curtir funk, não tem mais na favela, vem curtir aqui embaixo, na área nobre. Nossa cultura desceu do morro, e foi para outras mãos. A cultura funk foi roubada. E eles contratam quem eles querem."
Nesse contexto, de acordo com o funkeiro, o tráfico assumiu o funk dentro da comunidade. 
O Mandela é o que sobrou do baile funk. O Mandela é uma forma de diversão e uma forma de o tráfico vender
Funkeiro antigo
"Por um lado, a galera não tem como se divertir, não tem outros clubes. Não tem lugar para sair, então qualquer coisinha vai virar um baile. A gente só quer curtir o que é nosso por direito", diz. 
Outra pessoa envolvida com funk no Estado disse que o Náutico já tentou voltar algumas vezes, mas não conseguiu se manter "poque hoje é difícil você cobrar pra entrar em um baile sendo que tem 0800".
As casas que conseguem sobreviver, segundo a fonte, trazem atrações de fora. Além dessas, há as festas que tocam funk em área nobre. "Acho que enquanto não acabar com os bailes na comunidade, os clubes não vão conseguir voltar, ou então os clubes têm que se reinventar e fazer algo bem diferente que consiga bater os 'Mandelas'. Ficou mais fácil fazer assim, a burocracia também faz a pessoa desistir".
OPINIÃO NA INTERNET
Na página de um baile no Twitter, os organizadores destacaram a representatividade das festas para a comunidade. 
HISTÓRICO
A violência dentro e perto de bailes funk já fez com que os eventos fossem proibidos em Vitória, em março de 2004. Isso aconteceu após a morte de um jovem em Caratoíra, bairro em que Luiz Paulo, o Pipoca, foi morto. À época, o presidente da Associação de Funkeiros do Estado, Edson Ribeiro, disse ao jornal A GAZETA que lutava para que os donos de baile contratassem seguranças.

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