A suspeita de que Maria Aparecida da Silva, de 60 anos, estivesse sendo vítima de um golpe financeiro praticado por um homem com quem mantinha um relacionamento entrou na investigação sobre o feminicídio ocorrido em Piúma, no Litoral Sul do Espírito Santo. A Polícia Civil apura se ela percebeu que estava sendo lesada, passou a cobrar o homem e se isso pode ter motivado o crime.
De acordo com polícia, o suspeito, de 52 anos, mantinha um relacionamento com Maria Aparecida havia cerca de dois meses e confessou o assassinato durante interrogatório. Ele, no entanto, se recusou a explicar a motivação e a dar detalhes sobre como matou a vítima. As novas informações sobre o caso foram divulgadas pela Polícia Civil nesta quarta-feira (2).
Maria Aparecida foi encontrada morta no último sábado (29), em uma via pública no loteamento Portinho, com escoriações pelo corpo e a cabeça carbonizada. O homem foi preso na segunda-feira (31). O nome dele não foi divulgado.
Segundo o titular da Delegacia de Polícia de Piúma, delegado Rodrigo Toscano, Maria Aparecida e o suspeito se conheceram cerca de dois meses antes do crime, em uma loja no município, e começaram um relacionamento. Eles não moravam juntos.
Uma das linhas de investigação aponta que o homem se apresentava como intermediador de negociações envolvendo fazendas, gado e automóveis, mas a polícia ainda não encontrou comprovação de que ele realmente exercesse essas atividades.
A investigação apura se o suspeito se aproveitava do relacionamento para realizar negócios envolvendo o patrimônio de Maria Aparecida. A polícia trabalha com a hipótese de que a vítima tenha percebido que estava sendo lesada financeiramente e começado a questionar o homem.
“Talvez ela tenha investido em alguma coisa que ele tinha prometido pra ela, não tinha obtido retorno, e em razão dela provavelmente ter descoberto que de fato ele era um golpista, ele praticou esse crime. Mas esses são os indícios da motivação até o momento”, afirmou Toscano.
A polícia também recebeu informações de que Maria Aparecida teria penhorado joias para entregar dinheiro ao investigado ou investir em negócios apresentados por ele. O relato ainda não foi confirmado e instituições financeiras serão consultadas durante a investigação.
Em relação a uma motocicleta registrada em nome de Maria Aparecida, o investigado alegou que havia comprado o veículo no nome dela e que pagava as prestações à vítima. A polícia ainda vai verificar se esses pagamentos eram realizados.
"O que a gente apurou é que ele tinha um modus operandi de fazer dívidas ou comprar bens com o apoio da vítima. A gente ainda vai confirmar essa linha, mas, aparentemente, ele agia como estelionatário. Reforço que essa é uma informação preliminar da investigação. A motivação exata a gente vai conseguir esclarecer quando a investigação for finalizada", disse Toscano.
Além da motocicleta, os policiais encontraram com o suspeito o celular de Maria Aparecida, que havia sido formatado. Segundo o delegado, após o crime, o homem chegou a oferecer o aparelho como presente à filha de outra mulher com quem também mantinha um relacionamento.
“Ele formatou esse aparelho, tirou uma foto e ofereceu de presente pra filha da amante. Então, ele queria presentear a filha da amante que ele tinha com o celular que era da vítima”, relatou Toscano.
Segundo a Polícia Civil, as duas mulheres não sabiam uma da outra. A investigação ainda não conseguiu determinar qual dos relacionamentos começou primeiro.
Apesar de ter confessado o feminicídio durante interrogatório acompanhado por um advogado, o homem não explicou a motivação nem deu detalhes sobre a execução. “Agora, em relação à motivação, ao plano criminoso dele, ele se negou a falar”, afirmou o delegado.
Segundo o delegado, o suspeito disse ter matado Maria Aparecida no mesmo local onde o corpo foi encontrado, mas a versão ainda será confrontada com os resultados das perícias. A Polícia Civil aguarda o exame necroscópico para determinar a causa da morte e esclarecer se a vítima morreu antes de ter a cabeça queimada.
O carro que teria sido utilizado no crime também pertencia a Maria Aparecida. Segundo a investigação, o homem colocou a vítima no veículo e seguiu até a região onde o corpo foi localizado. O automóvel foi encontrado posteriormente escondido e já havia sido lavado.
O veículo foi apreendido e submetido à perícia, que poderá ajudar a Polícia Civil a reconstruir a dinâmica do crime. “A gente requisitou a perícia da Polícia Científica pra gente identificar o que tinha naquele carro, se tinha algum material inflamado, se tinha resquício de sangue", afirmou Rodrigo.
O laudo do local do crime deverá ajudar a apontar se ela foi morta no loteamento Portinho ou se o corpo foi levado para lá posteriormente.
O suspeito foi preso na segunda-feira (31), quando policiais foram ao endereço onde ele estava para intimá-lo a prestar depoimento. Segundo a Polícia Civil, ele tentou fugir, desobedeceu à ordem de parada e resistiu à abordagem. Já na delegacia, ainda teria ameaçado de morte um agente.
O homem foi autuado em flagrante por desobediência, resistência, lesão corporal majorada e ameaça. Após a confissão, a Polícia Civil também representou pela prisão temporária do investigado pelo feminicídio, que foi decretada pela Justiça. Nesta quarta-feira (2), a prisão em flagrante foi convertida em preventiva.
Segundo Toscano, o suspeito permanece preso por duas decisões distintas. O inquérito continua em andamento para esclarecer a motivação e a dinâmica do crime, além da possível ocorrência de crimes patrimoniais contra Maria Aparecida.