Vídeos divulgados pela Polícia Civil (veja acima) mostram a atuação de integrantes de uma equipe de rondas de uma empresa de vigilância investigados por sequestrar e torturar pessoas em situação de rua em Vitória. Segundo a corporação, o grupo também é investigado pela morte de Marcos Vinícius Lopes Rodrigues, conhecido como “Bracinho”.
Nove suspeitos se tornaram réus pela morte de Marcos Vinícius Lopes Rodrigues, conhecido como “Bracinho”. Oito estão presos e um permanece foragido. São eles:
Vigilantes:
Gabriel dos Santos Amaral, de 29 anos (preso);
Lucas Miguel Oliveira dos Santos, 28 anos (foragido);
Paulo Henrique Esteves Silva, 30 anos (preso);
Rafael de Souza Silva, de 33 anos (preso);
Saimon Sales Cesar, de 30 anos (preso);
Thiago Gonçalves, de 24 anos (preso);
Ralson Amancio Chagas, de 42 anos (preso);
Celso Henrique de zevedo, de 25 anos (preso).
Coordenador de videomonitoramento:
Gabriel Fittipaldi, 22 anos (preso).
Segundo a PolíciaCivil, o grupo mantinha um vínculo estável havia pelo menos dois anos e identificava pessoas em situação de rua que, na avaliação dos integrantes, causavam algum tipo de “perturbação” em condomínios monitorados pela empresa.
De acordo com o delegado Tarcísio Otoni, titular da Delegacia Especializada de Pessoas Desaparecidas (DEPD), os suspeitos combinavam previamente ações para retirar essas pessoas dos locais e, segundo a investigação, sequestravam e torturavam as vítimas.
"Existiam duas situações: pessoas que se recusavam a sair dos condomínios e as que cometiam furtos. Quando cometiam furtos, aumentavam a tortura", disse o delegado.
Pelo menos três vítimas foram identificadas pela investigação, entre elas Marcos Vinícius. Os suspeitos trabalhavam como rondistas de uma empresa de segurança privada que prestava serviços de portaria virtual e videomonitoramento para condomínios e estabelecimentos comerciais.
Segundo a polícia, a função dos rondistas era verificar alarmes, fazer o desarme quando necessário e acionar os órgãos de segurança em casos de invasão ou furto. A investigação, porém, apontou que o grupo teria ultrapassado essas atribuições e passado a capturar e agredir pessoas em situação de rua.
“Eles identificavam, eles aplicavam a pena e muitas vezes pena de morte”, afirmou o delegado Tarcísio Otoni ao descrever a atuação investigada.
Segundo a Polícia Civil, um dos investigados era conhecido como “Tiradentes” por supostamente arrancar os dentes das vítimas durante as sessões de tortura.
Segundo a Polícia Civil, Marcos Vinícius já havia sido alvo do grupo no dia 8 de março, quando foi identificado como responsável por entrar em um condomínio monitorado pela empresa. Conforme o delegado, o homem foi submetido a uma sessão de tortura e teve dentes extraídos com o uso de ferramentas, entre elas alicates.
Dias depois, na madrugada do dia 17 de março, Marcos foi novamente localizado pelos integrantes do grupo. Desta vez, segundo a investigação, os suspeitos teriam decidido matá-lo.
A polícia afirma que os integrantes identificaram pelas imagens de segurança que Marcos havia entrado na empresa de vigilância onde eles trabalhavam, na Praia do Suá, em Vitória. A partir daí, segundo a investigação, eles teriam usado um grupo de WhatsApp para combinar o sequestro e o local para onde a vítima seria levada.
Marcos foi levado para uma plantação de eucalipto na Serra, onde foi morto. O corpo foi localizado pela Polícia Civil em 20 de abril.
"Ele não foi torturado até a morte. Na verdade, a morte foi mediante tortura. A gente já tem a comprovação que o homicídio já era o desejo desse grupo criminoso", disse o delegado.
Segundo a investigação, o coordenador de videomonitoramento teria sido acionado especificamente para participar do homicídio e da ocultação do cadáver.
Além da morte de Marcos Vinícius, o grupo é investigado pela tortura de outras duas pessoas em situação de rua.
O delegado-geral da Polícia Civil, Jordano Bruno, destacou o trabalho da DEPD na investigação. Segundo ele, a apuração começou em março, inicialmente como um caso de desaparecimento de uma pessoa em situação de rua, mas revelou uma série de crimes cometidos contra esse público.
Jordano também destacou a colaboração da empresa de segurança privada durante a investigação e fez um alerta para empresas e condomínios que contratam serviços de vigilância. Segundo ele, é importante que pessoas jurídicas tenham cuidado na contratação e no acompanhamento das atividades realizadas por empresas de segurança.
"Não é função de empresa de vigilância encostar ou retirar pessoas de situação de rua", disse.
Em 15 de maio deste ano, a Polícia Federal encerrou as atividades de segurança privada de uma empresa de portaria virtual que atuava em Vitória após investigações apontarem ligação de funcionários com a morte de Marcos Vinícius Lopes Rodrigues.
A ação fez parte da Operação Segurança em Pauta III e foi realizada pela Delegacia de Controle de Segurança Privada da Polícia Federal.
Segundo a PF, a fiscalização foi motivada pelas informações divulgadas sobre o caso de Marcos Vinícius. Durante as apurações, realizadas com apoio da Polícia Civil, foi constatado que os envolvidos no crime estavam vinculados à empresa, que não possuía autorização da Polícia Federal para atuar no setor de segurança privada.
De acordo com a corporação, os funcionários realizavam rondas noturnas uniformizados e utilizavam tonfas, armas brancas e até simulacros de arma de fogo.
Diante das irregularidades, foi lavrado um auto de encerramento da atividade de segurança privada clandestina.
Na época, em contato com a reportagem da TV Gazeta, um representante da empresa situada na Praia do Suá afirmou que apenas um dos serviços oferecidos foi encerrado na ação da PF e que a empresa foi surpreendida pela conduta dos funcionários investigados, que foram afastados.
Dois suspeitos foram presos no dia 21 de abril, durante a Operação “Invisíveis”. Já em maio, mais dois vigilantes foram detidos durante a segunda fase da operação. Eles se apresentaram espontaneamente na sede da DEPD.
Foi a mãe de Marcos Vinícius quem procurou a polícia após perceber o desaparecimento do filho. Ela costumava levar marmitas diariamente para ele e estranhou quando não o encontrou no dia seguinte ao crime.
A companheira da vítima, também em situação de rua, relatou o ocorrido à mãe de Marcos, que decidiu acionar as autoridades.