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Ameaças a políticos nascem da intolerância e descrença nas instituições

Jean Wyllys, Marcos do Val, Audifax Barcelos e Damares Alves relataram ter sofrido ameaças recentemente. Alvos são de diferentes partidos ou posições ideologias

Publicado em 10 de Maio de 2019 às 21:35

Publicado em 

10 mai 2019 às 21:35
Marcos do Val, Audifax Barcelos, Jean Wyllys e Damares Alves Crédito: Montagem | Gazeta Online
Senador Marcos do Val (PPS), prefeito Audifax Barcelos (Rede), deputada federal Alê Silva (PSL-MG), a ministra Damares Alves e ex-deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ). Todos eles, além de envolvimento com a política, têm outro ponto em comum: sofreram ameaças recentemente. Especialistas acreditam que o momento seja favorável para o comportamento violento devido à descrença da sociedade nas instituições públicas, à intolerância à opinião contrária e à falta de perspectiva econômica.
E a intimidação sofrida ocorre com políticos e pessoas públicas de diferentes partidos ou posições ideológicas. O parlamentar capixaba, por exemplo, recebeu e-mails com ameaças de morte a ele e à própria família. Consequência? A irmã precisou mudar de Estado. Já Jean Wyllys, por difamação e também ameaças de morte a pessoas próximas, abriu mão do mandato e mudou-se do país. E, na campanha eleitoral do ano passado, houve a facada desferida no presidente Jair Bolsonaro (PSL).  
Para o doutorando em História e professor de Relações Internacionais, Comunicação e Direito da Universidade Vila Velha (UVV) Rafael Simões, a ameaça a qualquer cidadão por opiniões e posicionamentos públicos é algo inaceitável. Mas, quando trata-se de políticos, põe em risco também a democracia.
"Quando um político é ameaçado, você fere todos os eleitores que votaram nele e toda a sociedade que ele passa a representar", afirma.
E por que isso está ocorrendo justamente com políticos? O professor de Direito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Júlio Pompeu observa que o meio político alimenta a agressividade como método. "Não se contesta pelas ideias. Geralmente é algo ofensivo ou difamatório." As críticas, segundo ele, muitas vezes recaem sobre quem discursa, e não sobre o conteúdo. Por isso, para ele, em vez de discutir temas, a sociedade acaba por debater pessoas.
Pompeu acrescenta que isso é comum em relação aos políticos também por ocuparem posições de influência, são alvos e autores. E Simões destaca que a política, nos últimos tempos, se transformou em elemento de escândalo. "Os políticos ficaram como a face ruim da nossa democracia", analisa. 
RETROCESSO
Ao longo da História a violência e a política sempre estiveram vinculadas, afirma o historiador Fernando Achiamé. "Em Roma, Júlio César foi morto por um grupo de senadores em um contexto político extremado", relembra. E em um período não muito distante, em 1963, o Senado Federal teve até morte. O pai do ex-presidente Fernando Collor, Arnon de Mello, matou a tiros outro senador. "Ele errou os tiros, que eram contra um inimigo político do próprio Estado."
Quando um político é ameaçado, você fere todos os eleitores que votaram nele e toda a sociedade que ele passa a representar
Rafael Simões, doutorando em História
As intimidações recentes acontecem em todas as esferas e, inclusive, entre membros do mesmo partido. A deputada federal Alê Silva (PSL-MG) acusou o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, que também é do PSL, de tê-la ameaçado. A parlamentar diz que o ministro estava com "ódio mortal" após descobrir que ela foi a denunciante de candidaturas laranjas do partido e disse, por meio de intermediários, que acabaria com a carreira política dela. O ministro nega as acusações. 
AMBIENTE ATUAL DESPONTA VIOLÊNCIA 
Especialistas acreditam que as instituições públicas serem colocadas em xeque o tempo todo propicia o ambiente de intimidações. "O Congresso é mal visto, assim como o Poder Executivo, o meio acadêmico e a própria ciência. Isso gera inseguranças", avalia Pompeu.
Simões complementa que as instituições precisam levar mais a sério as ameaças. "Para que se concretizem, é um passo. Elas precisam debater isso publicamente, para mostrar a não aceitação desse tipo de comportamento", afirma. 
O primeiro passo das grandes crises políticas e morais é sempre a crise econômica, na opinião de Pompeu. A violência aparece como justificativa, segundo ele, quando os cidadãos não enxergam regularidade na economia e esperança nas instituições públicas e policiais.
"Quando as pessoas empobrecem, não veem perspectiva no futuro e aderem com facilidade a discursos autoritários e salvadores da pátria", opina Pompeu.
Outro fator, apontam especialistas, é a intolerância com quem pensa diferente. "Que garantia temos nós, cidadãos comuns, que teremos nosso direito garantido ao expormos nossa opinião?", questiona Simões. Para ele, a sociedade vive em um perigoso período de intolerância. "E isso se manifesta em vários comportamentos: feminicídio, racismo, homofobia", exemplifica. 
REDES SOCIAIS REFORÇAM COMPORTAMENTO
A internet é definida, por muitos, como "terra sem lei". Por lá, são disparados comentários de ódio diariamente. Para Pompeu, redes sociais disseminam os comportamentos violentos. "Se sentem à vontade para serem truculentos, pois têm a ilusão do anonimato. Há pessoas que reforçam os comentários racistas, machistas, misóginos. Ameaçam de morte as outras pessoas e encontram quem aplauda”, critica Pompeu. 
Um dos casos mais recentes de ameaças via redes sociais é o de Jean Wyllys. A Polícia Federal informou, em janeiro, que abriu cinco inquéritos para apurar as ameaças de morte ao ex-deputado, entre 2017 e 2018. O ex-parlamentar optou, este ano, por não assumir o mandado e mudar-se do Brasil. O motivo, segundo ele, foram as constantes intimidações e o conteúdo falso na internet.
PERIGO PARA DEMOCRACIA
Voltar a discutir ameaças de morte no meio político, para Simões, é um grande risco à democracia. Para ele, é um sinal de que a sociedade volta para os tempos em que a violência contra o adversário era algo aceitável. "Se acha que justifica do ponto de vista pessoal, vai achar razoável o uso da violência para tomada de poder. E aí é o fim da democracia", opina.
E qual o rumo disso? Para Pompeu, as pessoas aprendem que a vida é melhor sem conflitos. E, para ele, o problema é que aprende-se mais pela razão ou pela dor. "Infelizmente, a História mostra que aprende-se mais pela dor. Resta saber quantos serão agredidos atacados até aprendermos que a vida é compartilhada com quem pensa e sente de forma diferente de nós", diz o professor.  

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