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Atos antidemocráticos

Como o movimento bolsonarista culminou no ataque aos prédios dos Poderes no DF

Cientistas políticos analisam como grupo que acampou na porta de quarteis pelo Brasil contra o resultado das eleições chegou ao ponto de levar milhares para Brasília e iniciar um movimento radical

Publicado em 17 de Janeiro de 2023 às 15:01

Leticia Orlandi

Publicado em 

17 jan 2023 às 15:01
Apoiadores de Bolsonaro invadem prédios na Praça dos Três Poderes em Brasília
Apoiadores de Bolsonaro invadem prédios na Praça dos Três Poderes em Brasília Crédito: Reuters/Folhapress
As ações terroristas em Brasília que culminaram na invasão e depredação do Congresso Nacional, Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto no último dia 8 foi o ato mais recente dos bolsonaristas radicais, levando mais de 1 mil pessoas para a prisão.
Mas como esse grupo, que acampou na porta de quartéis pelo Brasil depois das eleições e tem como reivindicação a intervenção militar, incitando um golpe contra a democracia, chegou ao ponto de levar 87 ônibus para o acampamento de Brasília e iniciar um movimento radical que acabou com a invasão e depredação das sedes dos três Poderes?
Mesmo o bolsonarismo sendo um fenômeno que faz parte de uma onda mundial de extrema direita, ele também sempre esteve presente na política brasileira, segundo avaliação de cientistas políticos.
A cientista política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Mayra Goulart lembra que nas elites políticas brasileiras a direita e até parcelas da extrema direita sempre tiveram presentes, principalmente quando o assunto é o conservadorismo em termos de direitos civis e o punitivismo, com a ideia de combater o crime a partir do aumento das penas, o que também está associado ao crescimentos dos políticos ligados à segurança pública.
Ela destaca que no plano nacional havia um certo consenso entre as elites políticas progressistas - PSDB, uma ala do MBD – tendo como expoente Ulisses Guimarães – e o PT, o que foi abalado ao longo dos governos do PT.
“Além do mensalão, o PT vai também desagradando parte dessas elites não só pelas políticas sociais, mas também com medidas que contrariam a visão conservadora, muito ligada à população LGBTQIA+ e também o combate à criminalidade. Isso vai gerando um reservatório de ressentimento”, afirma.
O que começou, na análise dela, a vir à tona principalmente com o mensalão e, sobretudo a partir de junho de 2013. Ela acrescentou outros marcos importantes como a discussão do Plano Nacional de Direitos Humanos e a Comissão da Verdade durante o governo Dilma, além da discussão sobre o casamento homoafetivo. Isso tudo gerou uma agregação dos setores conservadores que passaram a ver no governo PT uma ameaça.
“Conforme vai criando esse reservatório de ideias de ressentimentos, Jair Bolsonaro vai despontando como uma liderança capaz de vocalizar esses anseios. E ele o faz de uma maneira muito radical uma vez que a sua trajetória legislativa é orientada pela defesa da ditadura militar, pela defesa da tortura e pela associação entre ‘o bandido bom é bandido morto’, ou seja, por um punitivismo muito grande no espectro na relação com a criminalidade”, detalha.
"Então Jair Bolsonaro já despontou como líder para segmentos mais radicais desse universo"
Mayra Goulart - Cientista política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
O cientista político João Gualberto acrescentou que em 2018 Bolsonaro coordenou uma coalisão de muitos interesses, incluindo o mercado liberal, com a presença de Paulo Guedes e também os antipetistas, além dos conservadores evangélicos e da Igreja Católica.

Papel das redes sociais

Gualberto lembra que a direita encontrou seu lugar nas suas redes sociais, o que o que permitiu a coalisão bolsonarista. "O que permitiu o Bolsonaro existir falando para tanta gente é justamente a existência das redes sociais. São elas que dão o volume, escala e densidade para esse movimento", frisa.
Mesmo assim, ele lembra que na rede social é possível articular e mobilizar sem liderança.
" É um tipo de articulação que não passa por liderança. A inexistência de liderança só é possível do mundo nas redes sociais, é isso começou com os aqueles movimentos de Barcelona, com a Primavera Árabe e os movimentos junho de 2013 no Brasil. Tudo isso construiu esse mundo que você articula e mobiliza com a liderança difusa nas redes sociais"
João Gualberto - Cientista político
Já a professora da UFRJ acrescenta que as redes sociais tiveram um papel importante no crescimento do bolsonarismo pela possibilidade de comunicação nichada e criação de grupos e subgrupos.
"Aí vai definindo muito bem o perfil de quem faz parte desse subgrupos. E aí vai comunicando a partir das características desse subgrupos de modo a reforçar a identidade e entremear esse reforço identitário com notícias que não são notícias verdadeiras, são as chamadas fake news, mas que encontram ampla adesão porque elas são moduladas a partir do perfil desses grupos", detalha.

Diferença de movimentos anteriores

Já o cientista político João Gualberto destaca uma diferença entre movimentos reivindicatórios anteriores: a idade.
“Essa turma que estava acampada na porta dos quartéis é cabeça branca. É um paradoxo, porque quem sempre puxou os movimentos mais densos da sociedade brasileira foram os jovens e agora pela primeira vez nós temos um movimento puxado pelos velhos”.
Dessa forma, ele considera que o movimento é mais do que ser conservador, mais do que buscar o liberalismo econômico, mas sim apego à vida do passado, negando avanços de tolerância, seja no ponto de vista da proteção aos movimentos identitários como o negro, LGBTIA+ e outros.
Acampamento bolsonarista na Prainha, em Vila Velha
Acampamento bolsonarista na Prainha, em Vila Velha Crédito: Ricardo Medeiros

Extremismo no Espírito Santo

No caso do Espírito Santo, o cientista político João Gualberto considera que historicamente é um estado conservador e relembra votações anteriores que o Espírito Santo apontou para essa vertente política.
Ele lembra que quando Plínio Salgado - político conservador que fundou a Ação Integralista Brasileira, um partido católico de extrema direita - foi candidato a presidente da República em 1955, o município em que ele foi mais votado no Brasil inteiro foi Colatina.
Nos anos 1930, quando surgiu o partido integralista, ele conta que a Câmara Municipal de Castelo era toda formada por vereadores integralistas. O integralismo conservador deu sustentação ao golpe militar e à ditadura militar de 1964.
“O eleitorado bolsonarista está em cima dessa malha do conservador e agora o evangélico, dessa matriz italiana de Venda Nova do Imigrante, Cachoeiro de Itapemirim e Castelo, por exemplo”, conta.

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