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Puxador de votos

Em queda desde 2010, PT no ES pode ganhar fôlego com candidatura de Lula

Desde que o ex-presidente deixou o governo, partido no Estado encolheu a cada eleição. Retorno de Lula como candidato ajudaria sigla a aumentar sua bancada

Publicado em 09 de Março de 2021 às 19:50

Rafael Silva

Publicado em 

09 mar 2021 às 19:50
O então pré-candidato à presidência Lula discursando na praça Costa Pereira, em 2018, meses antes de ser preso
O então pré-candidato à presidência Lula discursando na praça Costa Pereira, em 2018, meses antes de ser preso Crédito: Ricardo Stuckert/PT
Sem nenhum prefeito eleito no Espírito Santo e representado, no Estado, por um deputado federal e uma deputada estadual, o PT capixaba tem se enfraquecido a cada eleição, desde 2010, último ano do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no comando do governo federal. Com a anulação das condenações impostas a ele – e, consequentemente, a permissão para que seja candidato em 2022 – o retorno de Lula às eleições também deve impactar a política local, mas não a ponto de provocar uma grande reviravolta no tabuleiro político.
Para cientistas políticos, com Lula de volta ao páreo, o partido ganha um puxador de votos importante para candidatos em outros níveis – tal qual foi Jair Bolsonaro (sem partido) em 2018 – mas, internamente, o PT reconhece que é difícil montar uma candidatura ao Palácio Anchieta suficientemente competitiva para enfrentar o governador Renato Casagrande (PSB), caso ele busque a reeleição. No entanto, o partido quer ter uma candidatura própria para as disputas ao governo e ao Senado em 2022.
A presidente da sigla, Jackeline Rocha (PT), afirma que conviver com o antipetismo que se intensificou no país após 2014 tem sido um desafio, mas que a possibilidade de ter Lula no palanque tem "animado a militância". Para a disputa ao governo estadual, já são cotados o ex-prefeito de Colatina Genivaldo Lievori e a ex-secretária de Educação de Cariacica Célia Tavares.
"O Lula é um grande líder para nós e consegue dialogar com todas as frentes políticas; ele tem a capacidade de unir o Brasil. Nós, do diretório estadual, estamos trabalhando para ter candidatura própria ao governo e ao Senado, mas temos como objetivo principal, também, unir o campo da centro-esquerda e recuperar esses espaços que perdemos nos últimos anos", aponta.
Atualmente, o partido conta com os mandatos do deputado federal Helder Salomão (PT) e da deputada estadual Iriny Lopes (PT), eleitos em 2018, mas não venceu nenhuma prefeitura no Espírito Santo em 2020, apesar de ter chegado ao segundo turno em Vitória e Cariacica.
O cenário é bem diferente de 2010, quando o partido teve um de seus melhores resultados eleitorais no Estado, elegendo quatro deputados estaduais, uma deputada federal, o vice-governador e “ganhando” uma cadeira no Senado, com Ana Rita Esgário (PT) assumindo o lugar do então senador Renato Casagrande, que se elegia pela primeira vez para o governo estadual. O então petista Givaldo Vieira, hoje no PCdoB, era o vice de Casagrande. Foi o melhor desempenho do partido desde a eleição de Vitor Buaiz pelo PT, em 1994.
Um dos fundadores do partido no Estado, o ex-prefeito de Vitória João Coser (PT) acredita que a presença de Lula pode ajudar o partido a recuperar espaços no Espírito Santo. Para ele, parte da rejeição do partido se enfraquece com a anulação das condenações e o julgamento da suspeição do juiz que condenou Lula em primeira instância, Sergio Moro.
"Tudo o que está sendo discutido, as mensagens vazadas entre o núcleo da Lava Jato e o Moro, levam a crer que o foco era prender Lula e o tirar da eleição. Agora, esperamos que ele possa ser tratado como qualquer cidadão comum e ter um julgamento imparcial. Ele é um político que ou é amado, ou é odiado, mas, com certeza, ter ele podendo se candidatar anima o partido, os eleitores e até motiva novas alianças regionais", avalia.

HISTÓRICO CONSERVADOR DO ESTADO IMPEDE CANDIDATURA COMPETITIVA

Para cientistas políticos, Lula é um puxador de votos para candidatos de todos os níveis – como foi Bolsonaro em 2018 – e tê-lo presente nos palanques, impulsiona o partido. Além disso, o desgaste do atual presidente da República, que tem visto sua rejeição aumentar por conta das críticas à sua condução do combate à pandemia, é outro fator que pode ajudar o PT a ganhar mais votos do que recebeu nos últimos anos. No entanto, é longo o caminho do partido para conseguir construir uma candidatura competitiva para 2022.
O cientista político e historiador João Gualberto Vasconcellos destaca que o Estado tem uma tradição eleitoral conservadora, principalmente no interior, que tem sua origem na forte presença de movimentos integralistas nos anos 1930 e 1940, que já chegaram a ter mais de 23 mil filiados naquela época.
"Vem desse período uma raiz conservadora do Estado, hoje concentrada em grupos de bolsonaristas, alguns evangélicos e policiais militares. É uma parcela significativa do eleitorado capixaba "
João Gualberto Vasconcellos - Cientista político e historiador
Para João Gualberto, o DNA conservador do Estado, associado aos escândalos da Lava Jato, fizeram o partido encolher. 
"Não vejo a presença de Lula no palanque como um fator que mude o cenário da disputa a governo no Estado. Pelo menos no primeiro turno. Se houver segundo turno, e há uma possibilidade considerável disso acontecer, aí, sim, o PT e Lula, ao apoiarem um dos candidatos, podem trazer algo de diferente”, analisa.
Desde 2006, na última eleição de Lula, um candidato do PT não recebe a maioria dos votos no Espírito Santo. Naquele ano, o petista recebeu, no segundo turno, 65% dos votos, enquanto José Serra (PSDB) foi a escolha de 34% do eleitorado.
Nos anos seguintes, nem Dilma Rousseff (PT), nem Fernando Haddad (PT) chegaram perto disso. Em 2010, venceu Serra; em 2014, Aécio Neves; e em 2018,  o candidato a presidente mais votado pelos capixabas foi Jair Bolsonaro. Para o cientista político Antônio Carlos de Medeiros, embora tradicionalmente o Estado tenha um histórico conservador, isso não significa que o eleitorado não possa mudar. Com Lula no páreo, há maior probabilidade de o PT voltar a ter votações significantes.
"Mesmo que não eleja um governador, a presença de Lula, como um líder carismático da esquerda, pode ajudar a aumentar a bancada do partido. Ele e Bolsonaro têm esse perfil, com índices altos de popularidade e de rejeição, o famoso ame-o ou deixe-o. São figuras de apelo popular e, nesse sentido eleitoral, ajudam a eleger candidatos em todos os níveis", explica.
O cientista político Fernando Pignaton pontua que, embora Lula traga projeção para outros candidatos, no médio prazo, o "personalismo" partidário, ou seja, transformar o ex-presidente em um símbolo da sigla sem a renovação de lideranças na agremiação, pode trazer prejuízos para o PT.
O Lula é fruto de um processo de culto à personalidade feita pelo partido, um líder forte que é conhecido por estar presente no debate político há muitos anos, observa Pignaton. 
"É claro que a presença dele, no Estado, ajuda o partido a ter um melhor desempenho, mas o personalismo, reduzir o partido a ele, é algo ruim para o próprio PT"
Fernando Pignaton - Cientista político
 Na opinião do cientista político, quando Lula estava inelegível, o PT passava por um processo de renovação, que é importante para a democracia de qualquer sigla, e é algo que não deve ser deixado de lado.

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